Il Falconiere *

Não há muito mais que possamos dizer sobre o Il Falconiere, depois de duas estadias memoráveis que a Cíntia descreveu aqui e aqui. Pelo que vamos mais uma vez debruçar-nos sobre o restaurante estrelado do hotel que foi o motivo pelo qual conhecemos primeiramente este reduto de hospitalidade.

Silvia nasceu na cozinha, numa família de restaurantes. O seu marido, Ricardo, nasceu enólogo numa propriedade familiar há muito ligada à agricultura, em especial o vinho e o azeite. O mote estava lançado para que juntos recuperassem a antiga casa de família e lá instalassem um restaurante, cuja repercussão estavam longe de imaginar.

Vivíamos os anos de fulgor de Frances no seu “Sob o Sol da  Toscana” – aliás é fácil encontrar a autora do livro por aquelas paragens  – e toda a gente tinha a toscana como destino de sonho, e o restaurante de Silvia como ponto de paragem obrigatório na remota região de Cortona.

Ao lado de Silvia está Richard Titi, chef executivo, que tem comandado o destino dos fogões e da cozinha do Il Falconiere desde a conquista da estrela Michelin em 2002.

A ideia dos Baracchi passa por apostar na tradição toscana, mais em particular da região de Abruzzo, e criar uma cozinha que viva toda a atmosfera que sentimos quando entramos na sua propriedade. Uma cozinha clássica, com o conforto e conhecimento da cozinha tradicional, com as técnicas e uma estética mais contemporâneas.

Chegados à sala percebemos facilmente onde estamos e ao que vamos, enquanto vamos apreciando as históricas arcadas e as pinturas que nos garantem que estamos na Toscana.

Confortavelmente instalados, somos rapidamente brindados com o espumante clássico da família Baracchi, e uma larga seleção de pães, onde não faltam até opções livres de glúten (esse vilão!).

Entre as várias opções de carta e degustação, optou-se pelo menu dedicado aos pratos de caça, que já na visita anterior nos tinha ficado no olho, ou não estivéssemos nós numa região com forte tradição em caça.

Amuse Bouche

O início deu-se com um interessante amuse bouche, que juntava um souflé de ricotta com beringela, curgete e pimento, a contrastar com a quinoa e uma telha de tinta de choco que lhe elevava as texturas e os contrastes.

Terrina de Caça, crumble de zimbro, cacau e molho de visciolino
Um prato tecnicamente bem mais complexo do que recordava da nossa visita anterior. Boa conjugação de sabores em torno do bosque com a complexidade da terrina. Nota alta para o molho de visciolino – um vinho doce de final ligeiramente amargo – feito na casa e que elevou toda a harmonização.

Almôndega frita de Javali com puré de marmelo e creme de avelã
Não seria de todo a primeira ideia que me viria à cabeça quando penso em comer javali (uma das minhas carnes de eleição). No entanto, a fritura bem executada, de carne ainda húmida e suculenta, revelou uma prova acima das expectativas.

Tortellini de Faisão, o seu caldo e vinho marsala
A um nível bem superior, chegou-nos um tortellini perfeito – massa no ponto, recheio certeiro de faisão e um caldo que aquecia a alma. Uma excelente forma de elevar a cozinha tradicional!

Pasta recheada com Veado, sopa de castanha e grão de bico
Outro excelente prato, com um creme cheio de sabor, um ótimo ragù de veado e um aromático azeite de sementes de funcho que refrescava o aroma do conjunto. Outro prato autêntico, de cozinha puramente italiana, apresentado a um nível alto.

Codorniz com figos secos e finocchiona, folhas de chicória e batata
De sabor bem mais interessante que o aspecto, surpreende pelo recheio de frutos secos com finocchiona (um tipo de salame, típico da Toscana). Clássico e saboroso!

petit fours 

Seguiram-se os petit fours, que como é apanágio italiano vão surgindo na mesa como pré-sobremesa.  Combinação de doces clássicos, onde não faltaram os ótimos cantucci.

 Biscoito de chocolate negro, caramelo de mácide, castanhas e gelado de café
Com chocolate ninguém se compromete! Aqui apresentado em jeito de crumble de biscoito, bem conjugado com os sabores da estação com as notas de noz moscada, do mácide e das castanhas e com um bom gelado de café. Um fim simples e bem conseguido!

Para harmonizar, a escolha recaiu, como seria de esperar, num vinho da família Baracchi, desta vez com um Ardito 2012, produzido com Syrah e Cabernet Sauvignon. Um topo de gama em linha com a colheita anterior, complexo e concentrado, repleto de fruta escura e bem madura, equilibrada pelas notas de pimenta preta. Um vinho com personalidade forte, como se pretende para acompanhar as carnes que compuseram o menu.

Ao leme da sala continua Luigi Pipparelli, o que só por si serve de garantia para um serviço eficiente, sem pressas nem complicações mas também sem deixar detalhes ao acaso.

Considerações Finais
Como a Cíntia tão bem escreveu no seu último artigo sobre o Il Falconiere (ver), é sempre bom voltar onde se foi feliz. Mais ainda quando percebemos que as coisas não estão estanques nem presas ao passado. A cozinha de Silvia Baracchi e Richard Titi mostra isso mesmo, uma evolução técnica, um maior cuidado estético e atenção aos pequenos detalhes, mas também a mesma tradição de sabores ricos e de conforto que nos transportam sempre para uma cozinha de alma e autenticidade.

Um espaço de confiança, onde é sempre bom voltar e degustar a pureza da Toscana!

 

Il Falconiere – Relais & Châteaux
Preço médio: 70€ sem vinhosLoc. San Martino a Bocena, 370 – Cortona
+39 0575 612 679 
info@ilfalconiere.it

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Fotos: Flavors & Senses

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Montepulciano

2018 foi um grande ano, cheio de mudanças e também de muito sucesso, mas como o sucesso vem repleto de trabalho, foi igualmente um ano exaustivo! E às vezes essa exaustão não nos permite fazer aquilo que mais gostamos, que no meu caso é Viajar.

Já estávamos a preparar uma grande viagem para África do Sul (que mudou completamente as nossas vidas!) mas queríamos fazer algumas viagem mais pequenas antes disso, e então decidimos regressar a um dos nossos locais seguros, daqueles que nunca nos desiludem!
Voltamos a Itália!


Escolhemos o Il Falconiere em Cortona (ver artigo) como refúgio, porque somos da opinião que se deve voltar onde já se foi feliz! E revisitamos algumas cidades como Cortona (ver artigo), Pienza (ver artigo) e Florença (ver artigo)!

Como estávamos hospedados em Cortona, e esta faz fronteira com Montepulciano, decidimos ir à descoberta de mais uma vila típica da Toscana, onde o vinho também tem um papel importante!

Montepulciano pertence à província de Siena (ver artigo) e visita-se praticamente num dia (como a grande maioria das vilas da Toscana).

A cidade está situada no topo de uma colina entre dois belíssimos vales, o Vale di Chiana e o Vale d’Orcia (um dos locais mais deslumbrantes do mundo).

Ou seja, já aqui temos um dos esplendores da cidade – as Vistas!

As suas origens são etruscas e remontam ao século IV a. C..

Além de ser um local imperdível é também um ponto estratégico para quem visita a Toscana, pela sua proximidade de locais de excelência, como Pienza e Siena.
Atualmente tornou-se mais turístico, quer pela série Médici, quer pela saga do filme Twilight,que foram filmados lá.

Montepulciano é uma daquelas cidades medievais que apetece descobrir e explorar. Os seus palácios renascentistas, as suas elegantes praças, os seus pequenos recantos e as suas vistas tornam a vila numa das mais bonitas da Toscana.

A Não Perder:

• Iniciar a Cidade por uma das suas portas – Porta al Prato ou Porta delle Farine – a partir daqui não entram automóveis o que transforma automaticamente a cidade num recanto único com um toque de viagem ao passado!

• Antes de entrar numa das portas da muralha podem visitar a Chiesa e Convento di Sant’Agnese, a padroeira de Montepulciano.

Chiesa e Convento di Sant’Agnese

• Percorrer as ruelas e observar as casas nobres e elegantes que nos remetem para as famílias ricas e importantes que aqui habitaram durante os séculos XIV e XV. Apesar de que a verdadeira riqueza chegou já no século XVI quando os Médici tomaram o poder cidade.

Caffè Poliziano – café histórico de Montepulciano que data de 1868. Elegante, refinado e repleto de história! O seu nome deve-se ao importante poeta, humanista e dramaturgo do século XV, Poliziano, um dos braços direitos de Lorenzo de Médici, o Magnífico.

• Encontrar o Leão Heráldico de Florença (símbolo de força, poder e prestígio)- na Colonna del Marzocco ou no Palazzo Avignonesi – um dos mais bonitos palácios de Montepulciano.

• Descobrir a fachada junto ao chão do Palazzo Bucelli – onde encontrarão urnas e inscrições etruscas e latinas.

• A elegante Igreja de Sant’Agostino e mesmo sem entrar observar no alto da porta a Madonna con Bambino e Santo Agostinho e João Batista.

• Ouvir e observar, a cada hora, o sino da Torre dell’ Orologio o della Pulcinella.

• Visitar o Museo Civico Pinacoteca Crociani – num palácio do século XIV onde podemos encontrar achados arqueológicos, pinturas do período medieval e renascentista, e obras de Andrea della Robbia.

• Perder tempo no verdadeiro coração da cidade – a Piazza Grande, que serve de palco aos principais acontecimentos da cidade.

Na Piazza:
Palazzo dei Capitano del Popolo e o mítico Pozzo dei Griffi e dei Leoni – uma obra renascentista que representa o poder e prestígio da família Médici e de Florença.

Pozzo dei Griffi e dei Leoni

Palazzo Comunale – igual ao da Piazza della Signoria, o que não é por acaso pois foi Cosimo I di Médici que o ordenou!
Duomo – Catedral di Santa Maria Assunta com obras primas da escola de Siena.

• Percorrer a fortaleza e parar em cada recanto para simplesmente observar os vales que se estendem por km e km de esplendor.

Ainda em Montepulciano mas fora da fortaleza:

Templo do San Biagio – Onde um fresco, que remonta ao século XIII, de Madonna con Bambino e San Francesco, se ergueu em tempos numa igreja milenar e ao qual em 1518 se atribuíram alguns milagres. Milagres esses cuja importância levou a que Poliziano decidisse construir um templo. O projeto foi entregue a Antonio da Sangallo, o Velho (um dos mais importantes arquitetos do renascimento), que projetou o templo em forma de cruz grega e no centro foi colocado o fresco milagroso!

Templo do San Biagio

Montepulciano é mais um daqueles locais que têm o dom de nos transportar no tempo, é uma vila capaz de carregar em si a beleza e a história dum local sagrado e imponente com um toque de mistério e magia!

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Fotos: Flavors & Senses

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Il Falconiere – Voltar onde se foi Feliz

“Sem dúvida um local que deixará imensas saudades e ao qual iremos regressar no futuro!”

Foi assim que, há dois anos atrás, terminei o meu artigo sobre o Il Falconiere em Cortona, Itália, e é assim que o inicio hoje!

Numa breve viagem pela Toscana, no Outono do ano passado, decidimos revisitar o Il Falconiere, e se a primeira vez já nos tinha apaixonado esta conquistou-nos de vez!

É, sem alguma dúvida, um dos locais mais mágicos para nos hospedarmos na Toscana! Pois representa tudo o que esta é na sua essência.

Tradição, ambiente familiar, atmosfera de Dolce far niente, comida e vinho, muito vinho!

Quando chegamos, as cores do Outono brilhavam com o sol que se fazia sentir. Um dia muito ventoso que parecia brincar com toda a natureza envolvente!

Fomos recebidos como família, com aquele mimo dum familiar que já há muito não nos via. Os restantes hóspedes que estavam na pequena recepção tiveram a mesma simpatia genuína, notava-se que alguns eram igualmente repetentes!

Acompanhados ao nosso quarto fomos observando toda a quinta à volta, que nostalgia sentia em mim, que felicidade em regressar! As vinhas, as oliveiras, os ciprestes eram novamente meus confidentes.

A Toscana é o meu refúgio preferido já há seis anos, nenhum lugar no mundo me faz sentir tanta serenidade e plenitude.

Quando chegamos ao quarto, quer dizer casa… percebi que devíamos ter trazido todos os amigos e família!

Um quarto que na realidade podia ser uma casa

Ficamos numa das casas de família do Il Falconiere! Mesmo ao lado da Adega, e em tempo de vindimas, o aroma que se fazia sentir era rejuvenescedor!

Dois quartos enormes, um deles com sala integrada, mais um andar superior que eram também quartos. A decoração segue toda a linha do hotel com um ambiente extremamente aconchegante e confortável, onde é possível encontrar peças e mobiliário histórico da família Baracchi.

Os tetos em terracota e vigas de madeira junto com o mobiliário antigo conferem ao espaço um charme intemporal.

Os produtos de higiene que se encontram nos quartos de banho são orgânicos e produzidos à base de azeite, conferindo um aroma e textura à pele que apetece tocar.

No quarto esperavam-nos fruta, café, doces, e chá. Tudo o que se precisa quando se chega a um espaço que é a nossa casa longe de casa.

Nessa tarde fomos apenas aproveitar um excelente momento de ócio bebendo alguns dos vinhos produzidos na quinta. Ponderamos o terraço que eu adoro, com a melhor vista sobre as vinhas, mas o vento não nos permitiu e então optamos pelo bar que nos envolve naquele ambiente bucólico de fim de tarde. Aqui pudemos beber um bom vinho e petiscar uns snacks bem interessantes do restaurante.

Em Roma sê Romano, numa adega bebe vinho!!

Mais tarde, já pela noite divertimo-nos imenso com um workshop de pizzas num dos restaurantes da família Baracchi, o Locanda del Molino, onde literalmente metemos a mão na massa!

Sim eu fiz a minha própria pizza!!!!

Este restaurante serve comida italiana, boa e a com uma relação qualidade preço incrível. Tem um ambiente tradicional e familiar que nos conquista e nos faz sentir descontraídos durante toda a experiência. Mas sobre isso, o João fala-vos aqui.

Além deste restaurante, regressamos também ao restaurante estrelado de Sílvia Baracchi onde tivemos uma experiência ainda mais agradável que da última vez.

O sucesso do restaurante, que se foi tornando numa das maiores atracções de Cortona, foi uma das principais razões para que Sílvia e Ricardo Baracchi transformassem  o Il Falconiere num refúgio de todos e para todos.

A sala dos espelhos sempre preparada para um simpático e caseiro pequeno almoço

E como cada vez mais e mais pessoas descobrem este paraíso na terra, foi necessário aumentar o número de quartos, e por isso neste momento o Il Falconiere está em obras e garantir mais oito quartos, que se juntam aos 22 já existentes, mesmo na zona acima da piscina.

No Il Falconiere, apesar da paz constante, há atividades para todos os gostos, para os meus particularmente, as vinhas, a adega, os vinhos e o Spa são tudo o que preciso para ser feliz.

E por falar em Spa, lá estava ele, o Thesan Etruscan Spa, à minha espera quase intocável ao longo destes dois anos.

Entrei no jacuzzi de cromoterapia e esqueci que o resto do mundo existia. A natureza foi a minha única companhia nesse momento (e o João também, admito!).

Cá está ele!

Mas quem quiser algo mais ativo, pode sempre passear pela imensa propriedade, a pé ou de bicicleta, realizar diferentes percursos equestres ou visitar a vila de Cortona (ver), tudo devidamente preparado pelo staff.

Ou então dedicar-se à Falcoaria, atividade que dá nome à propriedade.

O Il Falconiere é um dos paraíso possíveis de encontrar na Terra. É um dos locais que nos faz esquecer o mundo, e entrar em comunhão com a natureza.

Dizem que a perfeição não existe, mas existem sim momentos e locais perfeitos, e essa é a sensação com que saímos do Il Falconiere.

Obrigada Sílvia, obrigada Anna Maria, obrigada a toda a equipa do Il Falconiere por serem como são simplesmente!

Mais uma vez digo…

Vou querer continuar a voltar onde fui feliz! E que esse regresso seja num futuro próximo!

Il Falconiere – Relais & Chateaux
Quartos a partir de 200€
Loc. San Martino a Bocena, 370 – Cortona
+39 0575 612 679
info@ilfalconiere.it

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Fotos: Flavors & Senses

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Locanda del Molino

Uns dias livres são sempre uma boa desculpa para uma rápida visita a Itália, mais propriamente aos vales e encostas encantados da Toscana. Como gosto de acreditar que é sempre bom voltar onde já se foi feliz, regressamos à encantadora cidade de Cortona para mais uma estádia no Relais Il Falconiere (ver).

Na ânsia de uma cozinha tradicional, bem ao jeito das avós italianas, acabamos a noite na Locanda del Molino, um pequeno restaurante e hotel de charme, também ele pertença da família Baracchi. 

Localizado no antigo lagar de azeite da família, o espaço é um hino à boa recuperação italiana, mantendo bem as suas raízes e traça histórica, num espaço confortável em que apetece estar e efectivamente nos sentimos na verdadeira Toscana.

Mas passemos ao que nos levou até ali, una vera cucina italiana. A surpresa começou rápido, chegados ainda cedo ao restaurante, somos apanhados a meio de uma aula sobre pizza para os hóspedes da Locanda, que decidimos também nós abraçar.

Espanto maior só quando a Cíntia nos brinda com a sua primeira pizza!

 A Cíntia e a sua 1ª Pizza

Entre fatias de pizza, copos de vinho e algumas dicas sobre a massa e o trabalho no forno, lá seguimos para a mesa.

Pão e azeite na mesa, ou não estivéssemos num antigo lagar de azeite, enquanto vamos escolhendo os pratos que viriam a revelar-se numa escolha acertada.

Flor de curgete recheada com ricotta e molho de manjericão 
E não podíamos começar de uma forma mais italiana e irrepreensível, ótimos flores com recheio na medida certa e as notas do manjericão e do azeite que elevam o conjunto. Muito bom!

Tagliatelle com ragù de coelho e Tagliolini rosa com molho de parmesão e trufa preta
Na dificuldade de escolher entre as pastas frescas optamos por partilhar duas. E em boa hora o fizemos, ambas cozinhadas no ponto, com nota especial para o delicado e saboroso ragù de coelho, nada seco e cheio de nuances, e para o sabor rico e generoso do molho de parmesão e trufa.

Ossobuco com ervilhas e pancetta
Para o secondi, optou-se por um prato de tacho, também ele em bom nível de sabor e cocção. Carne a desfazer e ainda suculenta, bem acompanhada pela combinação clássica de ervilhas e pancetta.

Crostata de amora e pinhões 
Uma tarte de aspecto rude e bem familiar é o que se pede num espaço como a Locanda del Molino. Ótima no sabor do recheio de amora e pinhão, pecou pelo excesso de massa que lhe serve de base. Mais fina e teria sido um êxito!

Tiramisù
Uma sobremesa pouco toscana, mas vá estamos em Itália, equilibrado na presença do café e com um creme de mascarpone de alto nível. Acompanhou estranhamente bem com as fatias de maçã que o acompanhavam e equilibravam na frescura e doçura. Um ótimo final!

A mesa bebeu-se um Syrah Smeriglio da família Baracchi, um DOC de Cortona, de cor intensa, e de nariz bem vincado, com notas de especiarias, frutos vermelhos e algum café e baunilha. Na boca segue o mesmo padrão, com uma boa persistência e riqueza de sabor a frutos. Uma boa companhia para os pratos de sabores mais ricos como foi o caso do nosso jantar.


Serviço amigável e familiar, sem pressas ou momentos de stress, bem à italiana, que nos fez sentir como parte da casa num jantar de família.

Considerações Finais 
A Locanda del Molino é um ponto de paragem obrigatório para quem passa por aquela zona da Toscana, seja para dormir, ou como nós, para ter uma refeição ao bom jeito das avós. O ambiente é autêntico assim como os pratos criados por Silvia Baracchi (*Michelin, no Relais Il Falconiere).  Os preços praticados são justos pela qualidade da cozinha e dos produtos o que nem sempre é fácil de encontrar em espaços muito frequentados por turistas.

Agora só me resta voltar a Cortona e continuar a ser feliz!

Locanda del Molino
Preço Médio: 30€ por pessoa sem vinhos
Località Montanare 10, Cortona
+39 0575 614 016

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Fotos: Flavors & Senses

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Lausanne – o que não perder na mais bela cidade da Suíça!

Lausanne foi fundada pelos Romanos à beira do lago no século I. Mais tarde, a população viria a descolar-se para as colinas onde estariam mais seguros.

Aqui fica atualmente a bonita e mágica Cidade Velha (Vieille Ville).

É uma das cidades mais bonitas da Suíça e um dos principais centros da cidade económica e cultural da Suíça Francófona.

Estivemos em Lausanne apenas três dias, que chegaram para que nos apaixonássemos por cada detalhe.

O que não pode perder nesta cidade que embeleza o norte do Lago de Genebra?

Estadia no Lausanne Palace
Um hotel memorável com um requinte sem igual, e ao qual pretendo voltar no futuro! Mas sobre essa experiência falo-vos mais aqui.

Tour Bel-Air e Salle Métropole
O edifício que confere à cidade um toque cosmopolita, e que tanto deu que falar na altura da sua construção!
O arquiteto Alphonse Laverrière quis dar um toque de Wall Street em Lausanne e então construiu em 1931 o primeiro arranha-céus da cidade, mas a população na altura insurgiu-se contra (e muito bem, na minha perspectiva) pois temia que este passasse a altura da catedral e pelo facto de wall street ser um dos epicentros do crash económico.

No entanto, hoje em dia é um dos principais cartões postais da cidade.

Eglise St-Laurent
A fachada é o único exemplar de arquitetura neoclássica da cidade.
Uma igreja protestante construída entre 1716-19 sobre as ruínas duma igreja muito antiga do século X.

Place de la Palud
Umas das mais bonitas praças da cidade, onde se localizam o Município de Lausanne de estilo renascentista, e a Fontaine de la Justice do século XVI.
Aqui é onde se sente pulsar a vida da cidade como se lhe pertencêssemos.
Todas as quartas e sábados há mercado de rua e uma vez por mês a praça enche-se de artesanato.

Vale um bom tempo passado aqui simplesmente a apreciar a vida!
Para lá da fonte tem uma modesta escadaria de madeira – Escaliers du Marché – que vai dar a outra escadaria que sobe até ao mais bonito ponto da cidade, a Cathédral Notre-Dame.

Cathédral Notre-Dame
Para mim foi o ex libris da visita a Lausanne. Admito que a sorte esteve do meu lado, como já é habitual! Decidimos subir até à Torre e durante os bons minutos que perdemos a subir, o clima lá fora mudou e começou a nevar, então, deparamo-nos com uma vista deslumbrante sobre uma cidade pintada de branco e uma sensação de que o tempo teria parado só para nós. Foi um dos mais belos momentos que já tive numa viagem.

Mas, voltando à Catedral:
Foi iniciada no século XII e concluída só no século seguinte.
É o edifício gótico mais imponente de todo o país.

Palais de Rumine
Edifício Neorrenascentista construído entre 1896-1906 foi outrora a universidade de Lausanne.
Hoje é apenas a biblioteca da universidade e mais cinco museus.
O Musée Cantonal des Beaux-Arts, o Museu de Arqueologia e História e os outros três estão dedicados à Geologia, à Numismática e à Zoologia.

Passear pela Rue du Bourg
Zona de casas antigas com joalharias, lojas de grife, bares e clubes de jazz.
Um dos locais mais alternativos e animados da cidade.

À volta de Lausanne

Saindo um pouco de Lausanne, em direção a Crissier, encontram o Hôtel de Ville com três estrelas Michelin.
Uma experiência imperdível para quem visita Lausanne.
Algo que infelizmente não tivemos oportunidade de fazer, daí termos que voltar urgentemente à cidade!

Olympic Museum
Aqui sente-se a história dos atletas da Grécia Antiga até aos jogos olímpicos da era moderna.
Não visitamos para podermos ter mais uma razão para voltar a Lausanne!

Admito que Lucerne mexeu mais comigo nesta primeira visita à Suíça. Mas Lausanne é sem a mais pequena dúvida um local a regressar, quero voltar ao Lausanne Palace, quero visitar o Hôtel de Ville em Crissier e quero regressar à Cathédral Notre Dame.

Para quem prepara uma viagem à Suíça, Lausanne é seguramente um local a não perder.

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Fotos: Flavors & Senses

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Monte da Ravasqueira – um Alentejo muito próprio

O Monte da Ravasqueira, ali bem próximo de Arraiolos, é um projecto da Família José de Mello, que ao longo de várias décadas se tem concentrado em desenvolver uma propriedade única, que conta hoje com cerca de 3000 hectares de uma rara e idílica paisagem alentejana.

Entre montes, diferentes altitudes e várias barragens o Monte da Ravasqueira foi-se transformando ao longo dos anos.

De uma propriedade famosa pela criação de cavalos, à fruta, passando pelas primeiras vinhas em 1998 e à revolução dos seus vinhos com a entrada do jovem enólogo Pedro Pereira Gonçalves. Enólogo que desde 2012 tem vindo a inovar todo o projecto da empresa, do enoturismo à vinha, da viticultura de precisão aos vinhos.

Pedro Pereira Gonçalves 

Mas passemos ao que realmente interessa, os vinhos e a sua prova. O cenário não poderia ser melhor: provamos os vinhos à mesa do The Yeatman, acompanhados por pratos únicos assinados por Ricardo Costa (**Michelin).

Depois de uma série de bem conseguidos snacks e uma  prova leve e descontraída dos vinhos mais descomplicados da gama Monte da Ravasqueira, seguimos para a mesa, onde os vinhos começaram a mostrar outros voos.

MR Premium Rosé 2015

MR Premium Rosé 2015 – Claramente um dos Rosés mais interessantes do país, feito a 100% com Touriga Nacional e passando por uma fase de battonage e estágio em Madeira. Um vinho complexo e sofisticado que mostra que o rosé pode ser muito mais que um vinho para momentos leves e de Verão. De aroma menos intenso que na edição anterior, continua com uma bela presença de fruta em contraste com leves notas fumadas. Na boca ganha dimensão, potência e exotismo, com a mineralidade, a frescura e a complexidade das leves notas a demonstrarem que estamos perante um belíssimo vinho que pede mesa e comida.

E para isso não poderia estar melhor acompanhado do que com uma interpretação mais arrojada e técnica da clássica salada Caprese, onde Ricardo Costa fundiu os 3 ingredientes clássicos numa série de técnicas da vanguarda espanhola. A essa experiência mais “molecular”, seguiu-se uma bomba de umami, com um prato à base de choco, carabineiro, soro de leite e enguia fumada. Um sonho!

Ravasqueira Reserva da Família 2016 e MR Premium Branco 2014

Ravasqueira Reserva da Família 2016 – Um branco muito premiado e que apesar da combinação de Alvarinho com Viognier, resulta num vinho de perfil clássico, com estágio carvalho francês, que nos leva a sentir citrinos e algum alperce, enquanto a boca nos traz complexidade e riqueza.

MR Premium Branco 2014 – Um ótimo branco, que se mostra melhor quando provado ligeiramente acima da temperatura habitual para vinhos  brancos. Uma combinação das castas Viognier, Alvarinho, Semillon, Arinto e Marsanne com estágio em madeira sur lies,  que resulta num vinho fresco, complexo q.b., que nos leva ao nariz notas cítricas e de fruta branca com uma leve nota de querosene. Demonstra uma fantástica acidez e uma mineralidade que perdura durante todo o seu final longo. Um grande branco do Alentejo!

 Dois belíssimos vinhos que resultaram muito bem com a untuosidade, gordura e riqueza da proposta do chef, um prato com Bacalhau, ovo BT, presunto e coentros.

  Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs 2014 e MR Premium 2014

Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs 2014 – Onde antes existiram romãs,existem hoje cepas de Syrah e Touriga Franca, que combinadas resultam num impressionante vinho que combina um certo carácter clássico, através de um prolongado estágio em madeira com a frescura e leveza de um vinho mais moderno. Grande concentração de fruta escura, bem límpida e madura, que contrastam com as notas a especiarias e baunilha trazidas pela madeira. Na boca continua a revelar a fruta, com uma frescura, acidez e leveza invulgares para quem passou cerca de 20 meses em madeira nova. Um vinho com força e personalidade que vive agora uma ótima fase de prova, mas que tem ainda um bom futuro em cave.

MR Premium 2014 – Um dos mais poderosos vinhos do Alentejo, resulta da combinação de Syrah, Aragonês e das Tourigas Nacional e Franca. O MR Premium é um daqueles vinhos que merece ser guardado por um longo período de tempo, deixando a sua prova imediata notas de um futuro ainda mais promissor. Um vinho de grande concentração, que traz ao nariz uma grande complexidade de aromas que vão da fruta escura às especiarias, passando pelo bosque e ervas aromáticas. Na boca é claramente um vinho de emoções fortes, revelando muita fruta bem acompanhada por excelentes taninos e uma finesse rara que não cansa. É um vinho que merece ser guardado por um bom período de tempo.

Aqui o Vinha das Romãs foi uma escolha consensual, é um vinho mais pronto a ser bebido, mais elegante e fácil, que acabou por harmonizar muito bem com os pratos de leitão que o acompanharam.

Dois pratos de Leitão segundo Ricardo Costa 

Por falar em leitão, devo deixar uma nota alta para a assadura irrepreensível, que resultou numa pele de vidrado crocante e uma carne suculenta e saborosa. Se estava boa a combinação com abacate e mole mexicano, o arroz caldoso com leitão e trufa negra estava simplesmente delicioso.

Ananás, Chá Verde e Pistachio

Monte da Ravasqueira Late Harvest 2015 – Produzir um Late Harvest no calor Alentejano parece quase um contrassenso, mas o certo é que o resultado de uma viticultura de precisão combinada com altas técnicas de vinificação tem algo de moderno e surpreendente. Inspirado no processo de um Ice Wine, este vinho 100% Viognier, vive e reflete a casta com as suas notas de citrinos e alperces, combinada com alguma fruta em calda e mel. O bonito é que o vinho além da doçura revela uma surpreendente e agradável frescura, que demonstra uma preocupação em seguir as tendências mais atuais.

Vinho este que combinou lindamente com a sobremesa, leve e fresca, como gosto de terminar as degustações.

Terminado o jantar houve ainda tempo para mais uma agradável surpresa do Monte da Ravasqueira, o seu vinho licoroso.

Monte da Ravasqueira Vinho Licoroso  Alentejano 

Monte da Ravasqueira Vinho Licoroso  Alentejano – Um licoroso alentejano de raro prazer, inspirado num clássico “Ruby” de Vinho do Porto, onde vai buscar as principais castas e a aguardente. Um Licoroso rico na fruta, com taninos marcados mas muito elegantes e uma certa frescura que não cansa a prova. Um vinho para beber no imediato e guardar a bem conseguida garrafa.

Em suma, os vinhos da Ravasqueira estão em alta e revelam um dos mais interessantes projectos alentejanos, mostrando muito bem que é possível a uma grande empresa criar vinhos distintos, arrojados e diferenciados.

Monte da Ravasqueira

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Com as Mãos na Massa – A (r)evolução do Pão

18h20 e lá estou eu bloqueado trânsito, cada vez mais intenso para os lados da Invicta, os nervos iam-se acumulando e o motivo não era para menos. Estava atrasado para um momento que aguardava efusivamente há algum tempo, a minha primeira formação sobre pão, pão a sério, de base tradicional e massa mãe (ou isco como lhe preferirem chamar).

Quem me conhece sabe que gosto pouco de atrasos e que gosto ainda mais de pão, pelo que os nervos não eram para menos, mas cheguei ainda durante os últimos preparos e com outros formandos ainda presos no trânsito.

À nossa espera estava Daniel Brandão, o padeiro cuja jaleca não deixava dúvidas sobre onde estávamos. Daniel é o responsável de padaria de O Paparico, para o qual produz aquele que é muito provavelmente o melhor pão da cidade, e das Cervejarias Brasão, onde provam que é possível levar bom pão, feito de forma artesanal a centenas de pessoas diariamente.

#danielbrandaopadeiro

Em cima da bancada não faltavam livros nacionais e internacionais sobre pão nem frascos com os mais variados tipos de farinha para que pudéssemos perceber facilmente todas as diferenças entre os tipos de grão, de moagem e, claro, de qualidade.

Há muito que me interesso e estudo o máximo sobre pão, mas é muito diferente quando alguém que vive esse trabalho diariamente nos vai explicando e tirando dúvidas sobre produtos e conceitos, e foi por aí que começamos a formação, com uma pequena e didática parte teórica antes de podermos entrar no vício, que é colocar a mão na massa!

Equipa de luxo

Aprendemos sobre os tipos de cereais, as diferentes moagens e os vários produtores, os tipos de fermento e, claro, sobre as linguagens e as percentagens de padeiro.

Posto isto, não há como passar à ação, a Formação era sobre Pães Tradicionais de Massa Mãe, pelo que haveríamos de aprender a adaptar pães como Mafra, Alentejano, Pão de Água, Broa de Milho ou a Sêmea, do fermento industrial para uma pura e rica massa mãe.

Mãos na massa e no primeiro dia lá fomos aprendendo sobre autólise, temperaturas, janela de glúten e voltas (parece chinês eu sei, mas é bem mais simples do que parece…). Enquanto isso fomos dando asas ao trabalho manual e ao prazer que é ver água, farinha e sal a transformarem-se em algo completamente distinto e essencial.

Massas feitas e preparadas para um merecido repouso de cerca de 24h, regressamos a casa de coração cheio e vontade que o dia seguinte chegue rápido para vermos a transformação final do nosso trabalho (e provarmos o pão, claro!).

Dividimos as diferentes massas, aprendemos a formar o empelo e a deixar o pão levedar nos bannetons (cestos próprios para dar forma ao pão), enquanto vamos fazendo uma delicada broa de milho.

A formação já ia longa, os olhos não paravam de se cruzar com a manteiga que faria dupla inseparável com o nosso pão, mas a massa só haveria de entrar nos fornos quando o “toque” assim o dissesse e a levedação estivesse no momento certo.

Aprendeu-se a cozer em fornos industriais e a recriar o “ambiente” num forno caseiro, mais tarde veríamos ótimos resultados em ambos os casos.

 Broa de Milho prestes a iniciar o processo de levedar.

Pães no forno, um tipo de cada vez, que cada pão tem a sua temperatura e tempo de cozedura ideal. Os primeiros a sair indicam que fizemos um bom trabalho, crosta dourada (nada de pães crus como gostam os portugueses) e um cheiro inconfundível. O resultado?  Parecíamos crianças quando recebem um novo brinquedo ou quando há um bolo no forno!

Os primeiros pães a sair do Forno

Diferentes formas e diferentes reações da massa diziam-nos que todos temos ainda muito caminho pela frente, a base está lá, agora é preciso melhorar as técnicas de amassar e dar forma ao pão para que ele responda no forno da melhor forma possível.

Houve pão para provar e levar para casa (que ainda havia de obrigar alguém a levantar-se da cama para uma pequena prova!!!), houve partilha de receitas e uma generosidade enorme por parte do Daniel que nos transmitiu paixão e sabedoria e que, infelizmente para ele, desde então lá vai levando com as minhas dúvidas!

Mas houve mais, cada um de nós trouxe para casa um pouco da massa mãe do Daniel, um tamagotchi dos bons que tenho cuidado com amor e carinho e que há pouco tempo acabou de celebrar dois anos de vida.

 Um grupo fantástico de apaixonados por pão verdadeiro

Agora e enquanto aguardamos que a Padaria GRANU ganhe vida em 2019 (novo projecto de Sérgio Cambas com Daniel Brandão), vamos replicando as receitas do Daniel em casa!

Nota: Para 2019 estão previstos muitos e vários tipos de Workshops com o Daniel, de Pães tradicionais a Bolos ou até Bolo-Rei. Para mais informações ou datas basta seguirem o Facebook da Granu.

 

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Ammar

“Amar e Mar” é o mote que dá nome a um dos restaurantes da renovada cidade de Leça da Palmeira, aberto em 2016 pela jovem Matilde Silva, que depois de uma boa experiência no Nova Tendinha decidiu abraçar em exclusivo um projecto maior e mais arrojado.

Para isso desafiou Pedro Silva, um dos jovens com melhor “pedigree” da sua geração – passou por vários espaços estrelados, Pepe Vieira, Serge Vieira ou até o clássico Villa Joya. Mas foi na cozinha de Ricardo Costa no The Yeatman que se fez cozinheiro, e ao lado de João Oliveira no Vista  que ganhou o peso da responsabilidade e a voz de comando – com uma curta mas intensa carreira em restaurantes de fine dining foi aparentemente fácil traçar os caminhos do restaurante, bom produto, técnicas e combinações de autor e conforto, quase que em jeito de casual fine dining.

O espaço, plantado à beira mar, combina uma interessante esplanada para os fins de tarde com duas salas confortáveis e bem decoradas, além de uma sala privada em forma de esfera que já fez correr muita tinta entre os media nacionais.

Mas foquemo-nos na experiência, que felizmente ainda é o que nos leva a visitar restaurantes! Decididos a ficar nas mãos do chef optou-se por uma pequena degustação de vários momentos da carta, em porções mais pequenas que o habitual.

Toro, shimeji, pickles de cenoura e nabo com vinagrete asiático
E começamos bem, com um prato de sabores e contrastes bem afinados, a revelar uma mão certeira na cozinha. Excelente equilíbrio entre a acidez e as texturas. Poderia beneficiar de um corte um pouco mais grosso do toro, para que libertasse toda a sua riqueza e untuosidade no conjunto.

Água e Sabonete
Seguiu-se o momento do pão, baseado na receita de pão de água, servido ainda quente e acompanhado por um bom “sabonete” que é como quem diz manteiga batida com avelã. Uma das melhores propostas de pão da cidade!

Foie Gras, Brioche com maçã caramelizada
Chamam-lhe Brûlée de foie gras, porque o mesmo é caramelizado antes de ser transformado e moldado em jeito de parfait. Ótima apresentação em forma de fígado ainda fresco, e servido com um bom brioche de maçã caramelizada. Boa textura e agradável combinação de sabores, embora não lhe ficasse mal um pouco mais de intensidade do foie (fala um viciado!).

A acompanhar os aperitivos estiveram 2 cocktails, em bom nível, um tiki e um mais clássico, que cumpriram muito bem com a sua premissa de iniciar a refeição.

Cocktails de autor

Robalo ao Vapor, orelha de porco, ravioli de crustáceos, camarão da costa, caldo de peixe assado e lula
Um prato que deixa transparecer a escola do jovem cozinheiro e, felizmente, um sentido de sabor muito apurado! Algo raro num chef com a sua idade! Ravioli de massa certeira, bom recheio, caldo saboroso e a ligar muito bem os elementos, especialmente o contraste entre a orelha e os restantes elementos. O Peixe estava no limite da sua cocção, mas ainda a dar uma boa degustação.

De notar que mais recentemente provamos uma nova e delicada versão deste prato, que se mostrou em excelente forma e apresentação com um fino talharim.

A harmonizar esteve uma proposta difícil de encontrar no mercado, o Maldito Branco, feito por Dirk Niepoort para Ljubomir Stanisic, um vinho com uma forte componente mineral, fresco, leve e de aroma cativante. Um vinho que dá prazer beber!

Bochecha de boi, cogumelos, ravioli de carbonara, molho de tendões de vitela e espuma de queijo
Mais uma vez uma nota altíssima para o molho, repleto de sabor e classe. Prato bem conseguido no contraste de sabor e texturas com tudo muito equilibrado. No entanto, pecou apenas pela falta de suculência que se pedia à carne da bochecha, com a terrina um pouco seca.

Linguini, cantarelos e trufa
Massa fresca bem trabalhada num prato de conforto, repleto de sabor e bom produto onde o queijo, os cogumelos e o aroma e delicadeza da trufa se fundem na perfeição.

No copo esteve outro vinho da dupla Dirk & Ljubomir, desta feita o tinto Éclair 2011, um ano clássico de vinhos potentes e cheios de corpo, aqui com uma roupagem mais elegante e fresca que combinou muito bem com a riqueza de sabor do prato.

Abacaxi, rum e lima
Como limpa palatos surgiu um “lollipop” de abacaxi semi congelado e regado com rum e lima. Diferente, interessante e a cumprir bem com o seu propósito.

Bubblemousse de banana, pipocas, chocolate e salicórnia
As sobremesas, ao contrário do que sucede muitas vezes, não ficam nada a dever às entradas ou pratos principais. Com um cuidado especial nas apresentações, com recursos a moldes e a técnicas de alta cozinha, o resultado é bem positivo, como é visível neste prato, onde uma boa mousse de banana se combina com o molho de chocolate, a crocância das pipocas e o sal da salicórnia para criar um resultado bem interessante na boca.

Houve ainda tempo para provar o  Ammartier com um “diamante” a chegar à mesa, numa combinação bem conseguida de chocolate branco com frutos tropicais, coco e lima.

Para e finalizar, e esquecendo que a noite já ia longa, acabamos com uns excelentes bombons produzidos na casa.  Uma bela surpresa!

Alguns dos bombons produzidos no Ammar

O Serviço decorreu de forma eficiente, com calma, bom trato e conhecimento sobre os pratos a serem servidos. A melhorar apenas alguns dos tempos entre pratos.

Considerações Finais
“Há mar e mar, há ir e voltar…” ora Alexandre O’Neill escreveu a célebre frase como forma de aviso para quem se aventura no mar, mas fazendo o trocadilho é fácil querer voltar ao Ammar quando conhecemos o trabalho que a dupla de jovens vai levando a bom Porto. Um restaurante onde a cozinha de conforto e a cozinha de autor convivem de uma forma particular, e que muito me agrada!

É certo que existem sempre pontos a melhorar, mas o cuidado, o sabor e o detalhe que o chef Pedro Silva já coloca no prato são sinónimo de um futuro auspicioso e sorridente!

Ammar Restaurante Cocktelaria
Preço Médio: 35€ por pessoa sem vinhos
Rua de Fuzelhas Nº 5, Leça da Palmeira
+351 229 958 241

English Version

Fotos: Flavors & Senses

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Metropole Genève

Este último Inverno descobrimos a elegante Suíça, e com ela os seus imponentes hotéis e um dos serviços mais exímios que já experienciamos.

Após Lucerna e Lausanne eis que nos aventuramos por Genebra, e aqui descobrimos um dos mais emblemáticos hotéis do país, o Hotel Metropole Genève.

Este histórico edifício conta já com mais de século e meio de existência e situa-se na icónica Rue du Rhone.


Localizado no coração da cidade, tem uma vista privilegiada sobre o lago e encontra-se rodeado pelas lojas mais luxuosas.
Está a uma distância relativamente curta da cidade Velha e da zona financeira, o que o transforma na melhor opção quer para os que procuram lazer quer para quem viaja a trabalho.

Primeira Impressão
Que se pode dizer de um imponente edifício neoclássico nascido em 1854?!
Os seus toldes vermelhos, no exterior, dão-lhe aquele charme de elegância intemporal, e a receção mantém essa mesma linha.

O vermelho predomina, misturando-se apenas com alguns beges e castanhos, mas até mesmo a árvore de Natal nos dá as boas vindas com a cor da paixão!

O interior é igualmente neoclássico mas com um certo toque de conforto e aconchego.

Fomos recebidos por uma equipa simpática que prontamente tratou do nosso check in e nos mostrou todo o hotel.

O Metropole foi renovado em 2016, no entanto, algumas alterações não foram possíveis uma vez que o hotel é Património da Cidade. E, sendo um antigo hospital, alguns dos quartos são um pouco mais pequenos. Mas, a renovação, apesar de manter a traça original, permitiu trazer quartos e zonas mais modernas e com áreas maiores.


Quartos
Contam-se 111, mais 16 luxuosas suites.
Ficamos num Lifestyle Lake-Side Room.
Este, com vista para o Lago de Genebra e para a famosa Jet d’eau, um dos mais icónicos cartões postais de Genebra (não percebo muito bem porquê, mas gostos não se discutem!), tinha especial enfoque na domótica, não descurando o conforto.


Mais uma vez as cores vivas são utilizadas criando um jogo cromático bem interessante que garante a simbiose perfeita com o chão de madeira.

A televisão no espelho, o turco incorporado no chuveiro ou o sistema de handy smartphone (internet rápida e ilimitada, chamadas locais e internacionais, informação útil da cidade, promoções exclusivas, e Concierge 24h) tornaram o quarto ainda mais apelativo.

 A vista sobre o Jet d’eau

 A esplanada do restaurante Gusto

Restaurantes
São quatro as excelentes opções que o Metropole garante aos seus hóspedes.

Muito próximo ao Lobby temos o eclético The Mirror Bar. Um espaço que nos remete de imediato para um ambiente trendy e vibrante transmitido pelos tons de vermelho e pelos espelhos.

The Mirror Bar

Funciona diariamente como bar/restaurante para um snack ou pratos mais simples acompanhados de um vinho ou cocktail, ou um chocolate quente nas tardes mais frias, ou simplesmente para um bom momento de ócio. Ao fim da tarde é impressionante a azáfama entre hóspedes e locais que circulam pelo bar numa relação eclética entre reuniões de trabalho e simples prazer.

 A vista sobre o lago a partir do MET Rooftop Lounge

Nos meses de verão temos o MET Rooftop Lounge, um espaço que garante os sunsets mais animados da cidade, um dos locais mais cosmopolitas, com as melhores vistas sobre o Lago, a cidade e as montanhas.

O Gusto, de cozinha clássica italiana, é o local perfeito quer para um almoço descontraído quer para um jantar romântico, onde o Chef Alessandro Cannata, um autêntico embaixador da cozinha italiana, nos delicia com os seus pratos.

E aqui tivemos a oportunidade de experienciar um dos mais criativos e inovadores menus de degustação de base italiana servidos fora do país.

Entre bom pão, champanhe e uns snacks leves e crocantes iniciamos uma surpreendente refeição, onde houve tempo para um delicioso tagliatelle de choco com molho puttanesca, uns pequenos raviolis em jeito de “capeletti em brodo” cuja combinação e o caldo deixaram boas memórias, e claro, um delicado lombo de veado com um molho guloso e legumes crocantes.

Para terminar, uma ótima desconstrução do clássico Tiramisù e um óbvio Mont Blanc (ou não o conseguíssemos vislumbrar pelo fundo da janela!).

O Gusto tem ainda uma vertente mais simples, no piso inferior, o La Cantina del Gusto, onde servem o pequeno almoço do hotel e almoço em self service.

La Cantina del Gusto

 

É também aqui que já há mais de dois anos servem um dos brunchs mais famosos da cidade.

Além destes locais, o hotel conta com outro espaço fora, o La Brasserie du Parc des Eaux-Vives, um restaurante de cozinha tradicional francesa a apenas alguns km do centro da cidade.

Serviços
Além dos habituais serviços, como serviço de quartos, Wi-Fi, lavandaria e concierge, o Metropole possui também outros serviços para os seus hóspedes.

A localização é talvez uma das melhores da cidade, o que facilita a visita de quem viaja a lazer mas também de quem viaja a trabalho.

O hotel está equipado com seis salas devidamente preparadas para todo o tipo de eventos. Adicionalmente, o Restaurant Hotel du Parc des Eaux-Vives, a apenas 5minutos de carro, possui também cinco salas.

O hotel possui ainda um ginásio bem equipado e com luz natural.

Atendimento
Os hotéis de grandes dimensões e do estilo business raramente são a minha primeira opção quando viajo, no entanto, há alguns que nos mostram que um hotel pode ser muito movimentado sem perder a identidade.

O Metropole mostra-nos isso mesmo, que mesmo com espaços amplos, e repletos de hóspedes, nos podemos sentir especiais.

Um bom exemplo da qualidade desse mesmo atendimento, foi quando verificamos que tinhamos deixado os cabos do macbook num hotel noutra cidade que visitamos anteriormente e o staff do Hotel (vários deles portugueses por sinal) prontamente resolveu o nosso problema junto do outro hotel sem que nos tivéssemos de preocupar com nada.

A verdade é que são estes pequenos detalhes que fazem toda a diferença!

Além de que, é sempre um privilégio ficar num edifício tão icónico e com tanta carga história!

Até breve Genebra!

Hotel Metropole Genève
Quartos a partir de 270€
Quai General Guisan, 34 – Genebra
+ 41 223 183 200
hotel@metropole.ch

 English Version

 Fotos: Flavors & Senses

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Mugasa

É impossível negar que vivemos dias estimulantes no que diz respeito à nova gastronomia Portuguesa, novos chefs cheios de mundo, técnicas e garra, restaurantes estimulantes e produtores cada vez mais especializados. No entanto quantas mais vezes sou estimulado e desafiado pela criatividade e ousadia desses mesmos chefs, mais procuro contrabalançar esse lado com uma cozinha simples, autêntica e, acima de tudo, baseada no produto.

Ao contrário de muitos outros países, nomeadamente a nossa vizinha Espanha, os Portugueses, durante anos, pouco ou nada se têm preocupado em conhecer e enaltecer os seus produtos, ou restaurantes especializados “nisto ou naquilo”. Tudo isto com uma excepção, o célebre Leitão à Bairrada – quem nunca percorreu centenas de kms em romarias de amigos e família, para se deslocarem à Estrada Nacional Nº1 que atravessa a Mealhada e por lá se deliciarem com um dos mais célebres pratos do receituário nacional?

É um prato mítico do país e juntamente com o vinho o maior ex-libris de uma região inteira. No entanto, há restaurantes e restaurantes, leitões e leitões e há também espaços emblemáticos que fogem à morada habitual.

Um desses espaços situa-se na pequena localidade de Fogueira em Sangalhos, o Mugasa, aberto há mais de 40 anos por Álvaro e Helena Nogueira, foi-se tornando famoso pelos seus vários pratos à base de leitão e, claro, a chanfana, que apesar de perder na fama para o afamado bacorinho é um dos pratos mais antigos da região. Hoje, ao comando dos fornos está Ricardo Nogueira, nascido e criado entre a cozinha e os fornos a lenha, tem melhorado a técnica e a selecção do produto para levar até à mesa o melhor leitão possível – uma espécie de Victor Arguinzoniz do Leitão.

Mas, passemos à mesa, já instalados na confortável e recentemente renovada sala, a escolha era óbvia, e foi-se seguindo a bom ritmo, começando com o sempre saboroso pão da região.

Iscas de Leitão
De entrada vamos provado outras partes do leitão, como estas iscas de cebolada. Delicadas e de sabor menos intenso que as do seu “irmão mais pesado”. Ótimas no tempero, embora deva confessar que prefiro uma textura diferente no fígado, mais mal passado e consequentemente um pouco menos seco na boca.

Cabidela de Leitão
Preparada com mestria esta falsa cabidela (não leva sangue), bem merece uma viagem ao Mugasa só por si! Um conjunto de miudezas do leitão, bem estufadas e apuradas que depois é finalizada no forno a lenha por baixo do Leitão, absorvendo todos os sucos que este vai libertando durante a assadura. Delicioso!

Leitão à Bairrada
Por aqui os segredos são vários, mas nem por isso são escondidos de quem visita o Mugasa, primeiro, o Leitão – só se usam leitões pequenos, dificilmente os haverá com mais de 4,2kg e que foram criados no campo em vez da pocilga, de forma a desenvolverem uma melhor fusão entre a musculatura e a gordura. Depois, claro, a assadura, a lenha de vide, e os cuidados de quem faz disto vida. Por fim, e não menos importante, o corte, a técnica de Ricardo Nogueira é bonita de se ver (é sempre um momento alto quando se pode assistir ao corte do leitão na sala) e melhor ainda de se comer, com todos os pedaços com um tamanho pequeno e  a pele a estalar com um fantástico vibrato. Da prova não há muito a dizer – sabor, textura, untuosidade, suculência, tudo está perfeito!

Pudim de Coco
Na falta do fantástico Pudim Abade de Priscos do Miguel Oliveira (já tinha terminado), provou-se um bem competente pudim de coco, com duas camadas, doçura equilibrada (que é normalmente o problema destas sobremesas), e de boa textura e sabor, revelou-se uma agradável surpresa.

Provou-se ainda a aletria, dura e seca como é tradição na zona, não deixou memória a quem está habituado a uma aletria, rica e cremosa.

A carta de vinhos é outro dos grandes motivos para visitar o Mugasa, primeiro pela quantidade e variedade de espumantes nacionais, como seria de esperar maioritariamente bairradinos, em segundo pela relação qualidade/preço imbatível, com vinhos muitas vezes mais baratos que o preço em garrafeira. Uma perdição para qualquer enófilo!

No nosso caso acompanhou-se a refeição com espumante Vinha Formal 2010 de Luís Pato. Um vinho que está a passar por uma lindíssima fase de prova.

Considerações Finais
Infelizmente e durante muitos anos a cozinha de produto em Portugal perdeu o seu lugar para produtos competitivamente mais baratos e de menor qualidade, algo bem diferente do que vem acontecendo com a nossa vizinha Espanha. Felizmente, com a cada vez maior consciencialização dos comensais e a melhoria dos produtores e de novos projectos, começamos a ver um novo rumo, novos chefs, novos produtores e novos clientes que se preocupam mais com a qualidade do que comem do que com o aparato e beleza com que o prato chega à mesa.

Pois bem, este Mugasa é isso mesmo, um dos nossos Templos do Produto, e o Ricardo Nogueira é hoje o grande rosto por trás do futuro desta iguaria, ainda por cima a simpatia e paixão com que fala do seu trabalho não deixam ninguém indiferente. São exemplos destes que Portugal precisa para colocar a nossa gastronomia no mapa.

Leitões? Leitões há muitos mas o do Mugasa é único!

Mugasa
Preço Médio: 25€ por pessoa sem vinhos
Largo da Feira, Fogueira – Anadia
+351 234 741 061

English Version

Fotos: Flavors & Senses

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