Paris – Kei**

Kei

Kei Kobayashi é um dos nomes japoneses mais conhecidos da cidade luz, com um percurso e uma paixão pela cozinha francesa difícil de comparar. Paixão essa que começou cedo, ainda em Nagano (sua terra natal) quando se encantou pelo trabalho de Alain Chapel num programa televisivo.

A partir daí começou o seu percurso na cozinha, primeiro em Nagano e depois em Tokyo, onde trabalhou com o saudoso Paul Bocuse. Aos 21 anos decidiu que França seria o seu destino, tendo passado pelas cozinhas de Gilles Goujon ( L’Auberge du Vieux Puits), do Le Prieuré e do Le Cerf, antes de se juntar à brigada de Alain Ducasse no famoso Plaza Athenée, onde trabalhou sobre a alçada de Jean-François Piège e Christophe Moret.

Kei-3 O minimalismo e o cuidado estético da cozinha de Kei passa também para a identidade e imagem da sala

Em 2011 o jovem Kei decidiu dar o grande salto da sua carreira, abrindo o restaurante homónimo, junto a Les Halles, no número 5 da rua Coq Héron, onde anteriormente funcionava o restaurante estrelado de Gerard Besson.

 Focado em desenvolver uma cozinha de autor, centrada no produto e num grande cuidado estético, o reconhecimento da sua cozinha foi imediato, tendo conseguido rapidamente vários prémios individuais e a famosa estrela. Em 2017 chegou a vez da segunda estrela no guia francês que para muitos pecava apenas por tardia.

Kei-5 Kei-4 O centro da sala com destaque para um Costeletão Maturado de Rubia Gallega. 

Mas, passemos à nossa experiência, que estamos aqui é para falar disso mesmo! Chegados ao restaurante, rapidamente percebemos a fusão entre a modernidade, o minimalismo e a estética clássica de um restaurante de alta cozinha francesa, tudo claro, limpo e harmonioso, com a equipa a movimentar-se por uma sala cheia com o equilíbrio e a elegância de uma grande orquestra.

Depois de confortavelmente sentados, somos brindados com o champagne De Sousa Brut Réserve Grand Cru, um 100% Chardonnay, de aromas fortes, com notas de flores, frutos secos e alguma floresta. Revelou-se agradável e fresco na boca e uma boa parceria para os snacks que se seguiriam.

Kei-6 Granizado de Shiso vermelho

E começamos imediatamente por despertar e refrescar o palato com um granizado de Shiso vermelho, que demonstra bem a fusão de culturas que iremos encontrar ao longo do menu. Seguiu-se uma Tartelete de iogurte fumado com sardinha e cebola roxa, um pequeno snack cheio de contrastes, com a crocância e a untuosidade a predominarem e um excelente final fumado.

Kei-9Tartelete de iogurte fumado com sardinha e cebola roxa 

Kei-7Bermejan de ervilhas com ricotta 

Interessante a textura e a leveza do Barmejan de ervilhas recheado com ricotta. Ao qual se seguiu uma Conquilha com gel de Bouillabaise, com o clássico sabor a mar, mas sem a intensidade e o picante da mesma.

Kei-8 Conquilha e gel de bouillabaisse 

Um grande início, que faria antever uma grande experiência, e ainda nem tinha chegado o pão e a manteiga – sim sou um homem fácil de conquistar – e aqui fui rapidamente conquistado pelo sabor da manteiga, a crocância da crosta e o aroma ligeiramente amargo do pão.

Kei-10 A manteiga moldada à mão no Kei 

 Kei-11 Tártaro de Camarão morunoCaviar shrenki, sopa de pêssego 
Imagem irrepreensível de um prato delicioso, onde a doçura do camarão e do pêssego se conjugam bem com a riqueza do caviar enquanto as notas fumadas da espuma de iogurte elevam a dimensão do prato. Excelente!

Kei-12O Jardin de legumes crocantes, salmão fumado da Escócia, mousse de rúcula e espinafre e pó de azeitonas 
Um dos pratos icónicos de Kei Kobayashi, e que tão bem representa a sua cozinha de sabor, elegância e texturas. Um casamento perfeito de texturas e sabores, onde nada se sobrepõe e tudo harmoniza com a subtileza que só uma mão japonesa consegue transmitir.

A acompanhar, esteve um Pouilly Fumé, La Moynerie 2015 de Michael Redde et fils. Um Sauvignon Blanc dos bons, ainda jovens, com notas e estrutura interessantes dadas pela madeira e uma acidez invejável que fez um excelente trabalho com o prato.

 Kei-14Foie Grasespuma de damasco, confit de gengibre, ameixa mirabelle e coulis de papoila
Foie será sempre foie, e a cocção ligeira de um excelente pedaço mostra isso mesmo. Grande combinação com as doçuras e notas das frutas, com um bom contraste entre doce e salgado e um “kick” de intensidade dado pelo coulis de papoila.

Porque não posso comer isto diariamente?

Kei-15Robalo de linha, escamas crocantes, vinagrete de tomate e redução de Barolo 
Só o trabalho técnico de colocar a pele e as escamas crocantes é digno de uma ovação. Execução sem falhas, sobre a qual são ainda colocados o limão, caviar, salicórnia e anchova. Para um contraste de sabores ainda mais acentuado e um sem fim de pequenas notas bem orquestradas surge a vinagrete, o shiso, a redução de barolo, o puré de anchova e a flor de courgette. Tudo funcionou lindamente, mesmo sem a adição de um molho ou de um caldo.

Kei-16 Lagostins da Escócia Fumadosfricassé de shitake, cebolinha e molho homardine
Os lagostins são primeiramente apresentados na taça onde são fumados, enquanto Charles Weyland (brilhante director de sala, já agora!) nos explica que os mesmos sofrem 3 tipos de cocção diferentes: 1º são escalfados por alguns segundos, depois cozinhados a baixa temperatura e por fim são colocados em pedras quentes e fumados. Um prato que roça o brilhantismo, quer pela simplicidade dos seus componentes quer pela demonstração do toque japonês no domínio da cozinha francesa. O fricassé de cogumelos e a cebolinha deram notas mais terrestres ao prato, dando-lhe assim mais dimensão e estrutura e o homardine (molho à base de bisque enriquecida com manteiga e nata) elevou a fasquia no sabor a crustáceos.

No copo, a escolha recaiu, não sobre o óbvio Sauternes, mas sim sobre um Chassagne-Montrachet 2015 do Domaine Coffinet-Duvernay, rico, untuoso e profundamente elegante, fazendo assim uma ótima harmonização.

Antes de passar à carne, houve ainda tempo para um clássico limpa palato – com um gelo de limão e menta.

Kei-18Pombo de Vendée lacado com misofigo assado 
Este pombo é um dos pratos mais emblemáticos da cozinha de Kei, e é fácil perceber porquê! Primeiro pela combinação de ingredientes franco-japoneses, depois pela contenção na adição de elementos. A cocção da ave com o miso, o molho reduzido da sua cocção, a pasta feita com foie, chalotas e lima e o brilhante figo assado com vinho tinto, criaram uma sinfonia de grande brilhantismo. Certamente um dos melhores pratos de pombo que pude provar na vida!

Para acompanhar, outro vinho da Borgonha, desta vez um tinto, Gevrey-Chambertin vieilles vignes 2012 do Domaine Rossignol-Trapet. Um vinho elegante, marcado pela madeira mas elevado por uma acidez impressionante.

Kei-19Pré-sobremesa 

Em jeito de pré-sobremesa surge um gelado de queijo de cabra fresco com marmelada de cereja, azeite da Sicília e vinagre de Modena. Leve, fresco e delicioso, fez uma boa substituição do habitual prato de queijos, que se tornaria pesado depois de tantos pratos.

Kei-20 Sopas de pêssego e de manjericãonectarina cozida, framboesa e tapioca
Uma sobremesa leve e fresca como gosto! Notas de fruta e ervas frescas, com o manjericão a aparecer não só na sopa como no gelado. O prato apresenta ainda um bom contraste de texturas e uma elegância e suavidade que surpreendem.

Kei-21Baba ao Rum
A versão do chef da clássica sobremesa francesa é, neste caso, coberta com rum, chantilly, cana de açúcar de Okinawa e gelado de cana. Bom contraste, boa doçura e acima de tudo sem excessos de qualquer tipo, numa sobremesa onde normalmente se excede no álcool.

Para terminar, e com um almoço já longo, nada como um bom chá verde japonês e umas delicadas mignardises – guimauve com lima e tartelete de caramelo salgado.Kei-22

Como já disse anteriormente, o serviço fluiu como uma grande orquestra, sem imposições, com bom ritmo e com domínio técnico que efetivamente nos faz pensar que também à sala a segunda estrela tardou a chegar!

Kei-24Kei Kobayashi

Considerações Finais
Numa altura em que cada vez mais jovens chefs japoneses tomam a cozinha francesa e a cidade de Paris de assalto, Kei Kobayashi será porventura, e a par com Shinichi Sato (restaurante Passage 53), o grande líder desta mudança. Mudança essa que traz consigo, não uma data de inovações, mas sim o oposto, diria que traz contenção, respeito, paixão e a simplicidade e harmonia que só a cozinha japonesa consegue transmitir. Os sabores são mais puros, os pratos mais leves, as apresentações mais simples, mas o resultado final é de uma elegância e de uma finesse que nos faz corar de prazer.

E foi isso mesmo que senti no fim de um longo almoço no Kei, uma cozinha de autor, baseada no respeito pelo produto, na paixão pela cozinha francesa e por uma brilhante combinação de ingredientes. Sem dúvida uma das mais interessantes mesas da cidade!

Kei-23 Para o nosso habitual #vinhoemviagem, presenteamos o chef com um delicado Porto vintage 1980 da Warre’s

Além disso, o Kei pode ser uma descoberta mesmo para quem não quer gastar os preços mais elevados dos restaurantes estrelados de Paris, com um menu de almoço a 58€, é sem dúvida uma das melhores ofertas da cidade neste segmento.

Kei
Preço Médio –  Menu de Almoço: 58€; Menu de degustação: 110/199€  (sem vinhos) 
Rue Coq Héron, 5 – Paris
+33 1 42 33 14 74 

English Version

Fotos: Flavors & Senses

Nota
O vinho desta edição do #vinhoemviagem foi gentilmente cedido pela Symington Family Estates

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Paris – Champeaux

Lembro-me de visitar Paris ainda jovem e de tentar ao máximo evitar a estação de metro/Rer de Chatelet-Les Halles, fosse pela confusão dos milhares de pessoas que se cruzam na estação, ou pelo ar sinistro e ambiente mal frequentado da zona de Les Halles.

Longe iam os tempos em que esta zona era conhecida como o “ventre” da cidade, por ter alojado o principal mercado alimentar da região de Paris, que há quase 50 anos se mudou para Rungis.

Felizmente, hoje tudo mudou! Alguns anos depois do início das obras e muitos, mesmo muitos milhões de euros depois, Les Halles foi revitalizado, tornou-se apetecível para a instalação de lojas de várias marcas internacionais e para a Canopée – estrutura arquitectónica que cobre o Forum des Halles, com mais de 18.000 mil telhas de vidro – que é já um polo de atracção turística por si só.

E foi aí mesmo, debaixo da Canopée, que o mestre Ducasse decidiu fazer a sua incursão pelo renovado mundo das Brasseries de estação, à semelhança do que fizeram também Eric Frechon ou Thierry Marx, criando uma ideia de cozinha de autor democratizada e acessível a todos (ou quase!).

Ao contrário do que têm realizado no Aux Lyonnais e no Benoit, Ducasse e o seu sócio Olivier Maurey quiseram modernizar o ambiente de Brasserie, e adaptá-lo ao ambiente que se vive hoje em Les Halles. Para isso entregaram a decoração ao atelier Ciguë, que criou uma atmosfera minimalista, com toques da era industrial dos anos 70 aliada a um design contemporâneo que tende a dividir as opiniões – ou se ama ou se odeia!

Como peça chave temos um painel gigante que lembra os painéis dos aeroportos e das estações, mas que em vez de voos e horários nos deixa antever a carta e as sugestões do chef. Um detalhe irresistível!

Mas comecemos então o nosso périplo gastronómico, e para isso um brinde com Champagne Baron de Rothschild Extra Brut, ou não estivéssemos nós em Paris.

Seguiu-se uma clássica e deliciosa Baguette de pão au levain, crocante por fora, bom aroma e interior leve e arejado, sempre bem acompanhada pela manteiga e as delicadezas que se seguiriam.

Foie Gras de Pato confitado e doce de figo
Fossem todos os inícios assim! Terrina executada na perfeição, rico, untuoso e com um ótimo sabor, o foie ligou na perfeição com o doce de figos ligeiramente especiado. Muito bom!

Corvina, Cenoura, lima e gengibre 
A foto não é a melhor das ilustrações deste tártaro, que é mais como quem diz, peixe marinado, com cenoura, gengibre e lima. Peixe delicado, no ponto de textura certo, muito bem temperado com um bom equilíbrio de acidez e doçura.

Pâté “Grand Mère”, pickles 
Continuamos a saga de bons pratos e de bons acompanhantes para o ótimo pão que ia chegando à mesa em ritmo contínuo (os anti-gluten que me perdoem!). Pâté clássica, bem executada, com um equilíbrio ótimo entre as várias partes do animal e a gordura. Perfeitos estavam os pickles caseiros, que não só embelezam o prato como o elevavam a outros patamares.

Bife tártaro 
Seguiu-se o bife tártaro, e com ele veio a primeira desilusão da noite. Aspecto perfeito, que deixava antever um ótimo sabor ou não estivéssemos nas mãos das equipas de Ducasse. Mas foi isso mesmo que faltou, sabor no tempero, e principalmente na qualidade da própria carne. Para compensar um lado mais desenxabido do tártaro, estiveram as batatas fritas que se revelaram viciantes.

Coquilletttes com fiambre, comté e trufa negra
Um dos mais famosos pratos do restaurante, é também uma alusão à comida infantil, transportando-a para ingredientes de luxo e técnicas de alta cozinha. Quem nunca comeu massa com queijo e fiambre que se acuse, e quem já comeu, nunca mais o quererá fazer depois desta combinação. Um prato que nos faz sorrir, nos dá o conforto da simplicidade e que eleva a fasquia do sabor pela conjugação de ingredientes. Delicioso!

 Entrecôte, batatas fritas e Béarnaise 
E voltamos aos problemas, e mais uma vez com o mesmo ingrediente. O Ponto médio-mal veio mais para o bem, e o sabor e textura da carne também não nos deixaram satisfeitos. Uma pequena mancha, que poderia ser maior, não fosse o brilhantismo do Béarnaise e das batatas, que bem podiam ser uma refeição por si só.

Soufflé de Alperce, gelado de amêndoa
Costuma dizer-se que “depois da tempestade vem a bonança”, e assim foi! Depois de um prato menos conseguido, chegou outro dos momentos que tem dado fama ao restaurante, os soufflés, aqui numa versão fantástica de alperce, muito bem acompanhado por um excelente gelado de amêndoa. Excelente a técnica e excelente a combinação dos ingredientes. Um belíssimo final!

A carta de vinhos, sem a extensão das grandes casas, contempla um pouco de todo o território francês, com principal foco, como seria de esperar, nos vinhos de Bordéus e da Borgonha. E foi sobre esta última que as nossas escolhas recaíram nos vinhos a copo.

Dizer ainda que a sala presta um trabalho de elevado nível, prestável e simpático, consegue fazer-nos sentir à vontade, mesmo com todos os padrões de normas e regras que o grupo Ducasse deverá impor.

Considerações Finais
O Champeaux faz parte de uma nova vaga de brasseries, onde os grande nomes da cozinha francesa apresentam propostas mais “terra a terra”, cozinha de conforto baseada nas tradições francesas e acessível à maioria das pessoas que pretende visitar um espaço com assinatura, neste caso do mestre Ducasse. O espaço e a decoração foram uma agradável surpresa, com detalhes de modernidade e bom gosto. A cozinha teve algumas falhas, nomeadamente no que toca às carnes, mas que felizmente foram superadas pela qualidade do restante que se comeu.

Assim sendo, e considerando que existem muitas opções de restauração na área de Les Halles, e apesar do preço ligeiramente mais elevado do Champeaux, a visita merece recomendação, especialmente para quem procura clássicos deliciosos como o Soufflé ou Foie Gras, num ambiente cosmopolita e actual. Até breve!

Champeaux
Preço Médio: 50€ por pessoa sem vinhos
La Canopée – Forum des Halles, Porte Rambuteau – Paris
+33 01 53 45 84 50

English Version

Fotos: Flavors & Senses

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Paris – Akrame *

Akrame Benallal pode não estar debaixo dos holofotes da World 50 Best e de outras publicações onde o trabalho de PR dos chefs e das suas agências é muitas das vezes de nível superior ao das suas cozinhas. Mas, reconhecimento não lhe tem faltado, desde que em 2011 abriu o seu restaurante homónimo. Das estrelas Michelin a aberturas de outros negócios e restaurantes, perseverança é coisa que não tem faltado ao jovem chef, mesmo quando o Guia Michelin decidiu retirar-lhe a sua segunda estrela (hoje tem uma estrela em Paris e uma em Hong Kong). Poderia pensar-se que a sua rápida ascensão tinha chegado ao fim, mas Akrame Benallal foi abrindo os Bistrot de sucesso Atelier Vivanda um pouco por todo o mundo, o Cave Brut, um bar de queijos e vinhos em Paris, e também na cidade luz o Shirvan Café Metisse, uma espécie de Bistrot de influência árabe, onde presta homenagem às suas origens e às suas viagens.

Hoje, e enquanto se “diverte” na nova localização do Akrame e cria a sua nova coleção de Alta costura (como gosta de chamar à sua cozinha), o chef prepara-se também para uma grande empreitada, a reformulação de toda a estrutura de restauração dos armazéns Printemps.

Mas, passemos ao restaurante propriamente dito que foi isso que nos levou até ao número 7 da rua Tronchet – edifício famoso por uma célebre aventura de Kim Kardashian! O espaço foi outrora utilizado como um “pop up”, mas com as irrepreensíveis obras na cozinha e algumas restruturações da sala, passou a ser o sítio que Akrame assumiu como a sua casa.

Um espaço que faz jus à reputação de um cérebro impetuoso e criativo com uma  singular veia artística onde a estética e o gosto andam normalmente de mãos dadas.

Entrando no restaurante somos absorvidos pelo ambiente escuro, minimalista e moderno da recepção que se abre para a cozinha. Em tons negros (ou não fosse essa a cor preferida do chef) somos “obrigados” a prender o olhar durante algum tempo, enquanto vamos acompanhando todo o bulício do trabalho.

A impressionante e minimalista cozinha do Akrame 

Já à mesa, começamos o almoço sem perdas de tempo, e os snacks foram surgindo rapidamente e a bom ritmo.

O despertar do palato não poderia ter sido melhor, uma melancia infusionada com Pastis, cuja frescura e a conjugação refrescaram o palato e aceleraram a salivação como se pretende.

Melancia e Pastis

Batata e enguia fumada

Seguiu-se uma elegante “ardósia”, que é como quem diz chip de batata com enguia fumada e um cracker de fromage blanc com gelatina de pepino. Ambos delicados, com boa conjugação de sabores e texturas – fossem assim todos os inícios!

cracker de fromage blanc e pepino

 Pão é vida!

“Alto e pára o baile”, que chegou o pão à mesa! Boa crosta, boa hidratação e aquele aroma e travo azedo que o torna um prato quase perfeito.

Tomate e amêndoa 
Seguiu-se uma entrada que visualmente se estranha mas que depois de colocada na boca nos conquista de imediato, uma espécie de Ile Flottante de tomate e amêndoa, que torna uma entrada numa “provocação” às sobremesas. Intenso nos sabores e delicado nas texturas é um prato simplesmente delicioso!

  Lingueirão, Amaranto e véu de leite
O amaranto foi cozinhado em duas texturas, primeiro quase como um risotto, bem conjugado com a delicadeza de uma cocção perfeita do molusco, e depois coberto com amaranto frito e crocante. A isso junta-se a untuosidade e riqueza do leite e as notas frescas do óleo. Uma verdadeira combinação artística de texturas e sabores, que surpreendeu pela positiva!

Para acompanhar as entradas, e não estivéssemos nós em Paris, começamos com um Champanhe, Lallier Blanc des Blancs, um vinho de grande elegância com notas cítricas e de brioche, um vinho de grande elegância  e de amplo e longo sabor, cuja finesse e acidez  fizeram a maridagem perfeita.

 Peixe galo, palmito e espinafres 
Mais uma conjugação aparentemente imprópria, que resultou num prato esplêndido. Peixe galo      perfeito, bem conjugado com todas as texturas do prato e as notas fumadas do palmito e das cebolinhas assadas, refrescadas pelo sabor “verde” do espinafre. Bravo!

No copo viajamos até Meursault com um Les Casse-Têtes 2015 do Domaine Chavy-Chouet, uma zona onde é extremamente difícil plantar vinhas – daí o nome Les Casse-Têtes – que nos traz um vinho  simples, mas no bom sentido, com uma acidez interessante e que lhe dará anos de vida. É um vinho equilibrado, mais elegante e menos opulento e rico do que o habitual em Meursault, com notas de brioche, especiarias e fruta fresca e um final de boa mineralidade.

Vitela, Feijão branco, coco e carvão
Um prato onde brilham o feijão, a carne e o molho rico e brilhante que chamava pelas fatias de pão. Ainda assim uma conjugação com falhas, especialmente no equilíbrio, que tanto caracterizaram os pratos anteriores, seja pelo lado doce do coco como pela acidez do creme.

A harmonizar esteve, e bem, um Morgon, Passerelle 577 do Domaine Mee Godard de 2015. Mee é uma produtora de origem Sul Coreana que cresceu em França e em 2013 se estabeleceu em Morgon, estando apenas no seu 3º ano de produção com este 2015, o vinho mostra o imenso potencial das suas vinhas e do seu trabalho. Um vinho que foge completamente do Beaujolais a que estamos habituados, cheio de elegância e pureza, com notas de cassis e amoras, madeira bem integrada, de paladar carnudo, que ligou muito bem com o prato e uns taninos admiráveis. Um vinho harmonioso!

Limoncello Gelado para limpar o palato 

Morango
Aproveitando os últimos morangos da estação (aquando da nossa visita), Akrame voltou a um nível alto para as sobremesas, com duas propostas e diferentes texturas de morango, funcho e chocolate branco.  Fantástico o molho de Morango que regou o gelado!

Trufa, praliné, leite
Para terminar as sobremesas chegou à mesa uma aparentemente simples telha, com praliné e um delicado gelado de leite! Mas, e porque com os artistas existe sempre um “mas”, surge também uma “espécie” de trufa que é ralada sobre a sobremesa como se se tratasse do próprio fungo. Trufa essa que é uma fantástica e bem elaborada combinação de chocolate com trufa, cujas notas elevam o prato e nos transportam para algo bem mais complexo. Muito bom!

E porque um doce nunca vem só, houve ainda tempo para os petit fours, e para umas madalenas tão boas que apetecia pedir para embrulharem meia dúzia, como se estivesse numa das Pâtisseries da vizinhança!

Uma palavra ainda para o serviço, diligente e perfeccionista, como em qualquer boa mesa parisiense, mas com um certo toque de informalidade e descontração que caracterizam os espaços de fine dining mais actuais. Nota alta também para o serviço de vinhos, tudo certeiro, do copo às escolhas e temperaturas.

Considerações Finais 
Lembro-me de no passado ouvir críticas díspares ao trabalho de Akrame Benallal, aclamado por muitos, criticado por outros por falta de consistência, ou por colocar muitas das vezes a estética à frente da substância e do sabor.

Qual processo de metamorfose? Qual simples estado de graça e de inspiração provocadas pelas diversas mudanças no seu caminho? O que é certo é que hoje o talentoso chef vive um dos seus melhores momentos! Criações ousadas e combinações inusitadas resultaram numa fantástica experiência, quer artística quer gastronómica!

Uma visita obrigatória!

  O fantástico Warre’s Vintage 1980 que nos acompanhou nesta edição do #vinhoemviagem e com o qual presenteamos o chef no final da refeição.

Akrame 
Preço Médio: 130/160€ por pessoa sem vinhos (menu de almoço: 65€)
Rue Tronchet, 7 – Paris
+33 1 40 67 11 16 

English Version

Fotos: Flavors & Senses

Nota
O vinho desta edição do #vinhoemviagem foi gentilmente cedido pela Symington Family Estates

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Le Narcisse Blanc

A subtileza do movimento de uma bailarina, a misteriosa expressão no seu olhar, e a beleza eterna duma musa são a inspiração que levou a dupla Laurent e Laurence a criar o singelo Le Narcisse Blanc.

Cléo de Mérode foi uma bailarina da Belle Époque (digamos que foi a primeira It Girl de que há registo!), cuja beleza inspirou alguns dos mais emblemáticos artistas da época. Era apelidada de “pequeno e belo Narcisso”, e foi esta subtileza que inspirou o ambiente e decoração daquele que se tornou num dos meus hotéis preferidos na cidade da Luz.

Primeira Impressão
Localizado na Rive Gauche, entre a Ponte Alexandre III e a Torre Eifel, o hotel tem a localização que mais se coaduna com a beleza sedutora e misteriosa da bailarina.

Mal nos aproximamos do edifício, onde se localiza o Le Narcisse Blanc, é visível a personificação da mais perfeita mente arquitetónica, a de Georges-Eugène Haussmann.

E mal entramos no hotel, somos invadidos por uma sensação de luxo intimista e privativo. Aquela sensação que nos faz sentir que somos os únicos hóspedes no hotel, e que este se transforma de imediato na nossa casa.

Toda a decoração e a essência do hotel se mesclam entre a Art Nouveau, Art Deco e alguns pormenores quase que arabescos. Inaugurado em 2016, o Le Narcisse Blanc sendo ainda uma criança a combater num meio de centenários, é já um dos melhores hotéis da cidade.

Criado pela dupla Laurent e Laurence, tem também o cunho dos seus proprietários e da dupla de decoradores de interiores Thierry Martin e Thibaut Fron. As cores predominantes são o branco, o beje, o champanhe, o pérola, o cinza e o rosa.

O ambiente é de conforto e de glamour, com um toque de sedução.

Fomos, então, recebidos pela equipa da receção que tratou do nosso check in sem demoras e nos acompanhou ao quarto.

Quartos
Contam-se 37 dos quais sete são suites.
São dum classicismo contemporâneo que nos arrebata de imediato, não são o clássico habitual nem o contemporâneo habitual, são uma mescla dos dois que se conjuga na mais perfeita harmonia e fazem deles quartos intemporais.

Uns são dotados de terraço para a Torre Eifel, outros para os Invalides, e outros para o panorama elegante dos telhados parisienses.


Ficamos numa Suíte Clássica com uns generosos 36m2 e dotada dum pátio como que a lembrar um refúgio privado dentro da cidade da luz.

O quarto foi, sem dúvida, dos mais elegantes e confortáveis onde já estive, a cama, por sua vez, de longe a melhor de todos os hotéis que já experienciei.

Os tons peróla, beje, branco e champanhe misturam-se com uma subtileza incomparável com os tecidos de cetim e veludo que predominam nas cortinas e nos mais diversos tecidos, conferindo-lhe uma harmonia sem igual.

À nossa espera estavam fruta, água, doces e um presente da emblemática Angelina, que foram sendo repostos ao longo da nossa estadia. O quarto possui também máquina de café e diferentes chás. Tudo isto se encontra na imensa sala adjacente ao quarto.


Na casa de banho predomina o mármore escuro, e a fragância exclusiva do hotel presente nos produtos de higiene (maravilhosos!). Aqui, as torneiras são bolas de vidro com pequenos e belos narcissos no seu interior!

Para mim, que amo casas de banho, esta divisão poderia ser um pouco maior, dado que o quarto tem umas dimensões bem generosas, no entanto, essa falha é colmatada com o facto da zona da sanita ser num espaço à parte da restante casa de banho!

Restaurantes
O espaço que serve de restaurante ao hotel transpira glamour, ou não fosse o seu nome Cléo!
Aqui são servidas as várias refeições ao longo do dia.

Na primeira sala que dá acesso à sala principal do restaurante, além de todos os tons do nosso quarto, um rosa bem suave junta-se à paleta de cores, garantindo um ambiente feminino, sensual e com uma elegância que não se traduz em palavras.


Aqui é possível tomar uma bebida ou aperitivos ao longo do dia, ou simplesmente descansar. É também aqui que servem o delicioso “Tea Time”, com pequenos doces ou salgados acompanhados de chá e café. Anexo a este espaço existe um pequeno terraço, também ele com o cunho da elegância e conforto.

O Pequeno almoço no Cléo!

No restaurante propriamente dito temos tons mais à volta do bege, castanho e champanhe, e o ambiente é agraciado com espelhos que descem do teto até ao chão, dando uma sensação de amplitude, assim como os candeeiros com média luz que proporcionam uma atmosfera bastante sedutora.

Aqui tivemos oportunidade de tomar o pequeno-almoço, buffet e à la carte, e também de experienciar um jantar que nos surpreendeu.

O fantástico pão do Cléo!

É fantástico quando chegamos a uma mesa sem grandes expectativas, e prato após prato nos vão conquistando e surpreendendo. Foi esse o caso deste jantar, com assinatura do canadiano Zachary Gaviller, que com uma combinação de influências que iam da cozinha Francesa até Espanha, Portugal ou Japão, foi cativando as nossas papilas, e começamos logo bem pelo pão fantástico que nos serviram.

 Caldo de cogumelos com trombetas da morte e milho

Salmão confitado com shiso

Começamos bem com um rico e levemente picante caldo de cogumelos, equilibrado pela doçura do milho, e um brilhante salmão confitado com folha de shiso, beterraba e citrinos. Uma bela surpresa!

Bacalhau com alcachofras e mexilhões

Seguiu-se um excelente prato de Bacalhau, sim Bacalhau, e uma massa strigoli com nduja, lulas e tomate, ambos excelentes no sabor.

Houve ainda tempo (e espaço) para um excelente lombo de atum, e uma pintada com delicioso puré de castanhas. Para terminar, nada melhor que um bom prato de queijos, ou não estivéssemos nós em Paris.

Sem dúvida que o Cléo! com menus entre 29 e 55€ é uma opção a ter em conta, não apenas para quem se hospeda no hotel, mas também para quem procura boa cozinha, num espaço próprio e cheio de identidade sem a loucura ou confusão de espaços mais famosos.

Muito próximo ao restaurante temos uma sala onde é possível organizar almoços ou jantares privados com capacidade para 10 pessoas. Uma espécie de sala de reuniões e biblioteca.

Serviços
O Le Narcisse Blanc tem todos os serviços inerentes a um hotel de luxo, desde serviço de quartos, lavandaria, wifi (e wifi pocket), serviço de estacionamento personalizado, business center com computador e impressora, imprensa nacional e internacional, entre outros.
O hotel conta ainda com uma sala de reuniões, a mesma referida anteriormente para jantares privados.

O Le Narcisse Blanc garante, ainda, uma experiência única em parceria com o Domaine de la Soucherie, de passar um dia/noite no coração de uma vinha, na La Maison des Amis e La Maison des Vignes, a apenas 2h30 de Paris.


Para os amantes de ginásio, o hotel tem uma pequena sala com passadeira, bicicleta e alguns pesos.

 O João em modo selfie artística 

Mas, o verdadeiro ex libris do hotel é o seu Spa, um dos mais bonitos da cidade, sem dúvida.
Com linhas elegantes e com uma atmosfera acolhedora que nos remetem de imediato para o relaxamento, o spa é constituído por uma piscina aquecida com jatos de hidroterapia e em contra corrente, um jacuzzi, um hammam, uma sauna e uma fonte de gelo. Possui, ainda, gabinetes de tratamento assinados pela luxuosa marca Carita.

O Le Narcisse Blanc é intimista, é elegante, é sedutor, é carismático e é dotado duma equipa extremamente perfecionista e atenta aos pormenores, sem ser invasiva.

 Parte do encantado Spa do Narcisse Blanc *

É o novo luxo, que nos garante a privacidade que tanto procuramos nos dias de hoje.
O glamour está presente em cada detalhe, basta estarmos atentos, e os Narcissos são, sem dúvida nenhuma, o expoente máximo desta atmosfera de elegância. Estão presentes em todo lado, nos puxadores das portas, nas escadas, nas pinturas de parede em tons de dourado, no chão, e nos quadros tão singelos e femininos que se encontram por todo o hotel.

Eles dão nome ao hotel, e são a sua marca distintiva, e possuem a beleza e subtileza de Cléo de Mérode.

Um dos melhores hotéis de Paris para quem procura uma nova forma de experienciar o luxo, e um dos poucos a que não me importaria de chamar casa na cidade luz!

Até Breve, meu pequeno narciso!

Le Narcisse Blanc
Quartos a partir de 300€
Boulevard de La Tour-Maubourg, 19 – Paris
+33 1 40 60 44 32
contact@lenarcisseblanc.com

 English Version

 Fotos: Flavors & Senses e *Divulgação

Nota
Estivemos no Le Narciso Blanc a convite, sendo que isso em nada altera o nosso trabalho cuja opinião e o texto são da exclusiva responsabilidade do seu autor.

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Le Duc

Acabados de aterrar em Paris e sem reserva para o almoço de sábado, a escolha foi simples – tentar uma mesa no Le Duc, cujas recomendações e elogios da nossa querida Aiste (Luxeat) já há muito nos haviam conquistado.

Uma chamada da concierge, e 10 minutos de Uber e lá estávamos nós à porta de uma instituição gastronómica, aberta em 1967 pelos irmãos Minchelli, e que pouco ou nada mudou desde essa altura (e o bom disto tudo é que, neste caso, este é um facto mais do que positivo).  Ora vejamos, o Le Duc foi um dos primeiros restaurantes a dedicar-se em exclusivo aos produtos do mar, e foram os irmãos que durante o berço da Nouvelle Cuisine revolucionaram a forma de preparar e servir peixe, livrando um produto de primeira qualidade de mergulhos em molhos espessos, pesados e de uma cocção muito além do ponto ideal. Foram muito provavelmente os primeiros a servir peixe cru na cidade.

A decoração idealizada por Slavik (o Lázaro Violán dos restaurantes parisienses dos anos 70) remete-nos para o interior de um clássico iate de luxo, num jeito estranho de nos fazer viajar até aos anos dourados da costa sul de França.

Se o interior pode ser considerado velho, ultrapassado e completamente fora de moda, é também tudo isso que lhe dá encanto, quando passamos a porta e sentimos que estamos efetivamente a experienciar Paris, como um bom e refinado parisiense. E é isso mesmo que encontramos quando nos sentamos à mesa e em nosso redor se encontram clientes habituais, normalmente da alta sociedade francesa e da classe política, a sua maioria com um pézinho na reforma, e muito, muito poucos turistas – abençoados guias que volta e meia se esquecem de fazer justiça a verdadeiros templos de alta cozinha!  Sim , porque a alta cozinha também é subtileza, cuidado e produto de altíssima qualidade como os apresentados durante a nossa visita.

Caramujos quentes servidos como aperitivo

As boas vindas não tardaram em fazer-se sentir e a anunciar que estávamos num restaurante de peixe e marisco, Caramujos, acabados de cozer, repletos de sabor e cozinhados no ponto, a dar um bom presságio do que se seguiria. Segue-se o pão e a manteiga, não estivéssemos nós em Paris e num restaurante clássico, manteiga prensada com o nome do restaurante como mandam as regras e um ótimo pão a acompanhar, e a dificultar a concentração na leitura da carta.

Acabamos por optar pelo menu de almoço a 55€ (duas entradas, um prato e uma sobremesa), que se revelou uma ótima opção, ainda que pouco depois tenha passado algum tempo a namorar o prato de lagostins da mesa do lado – mais um bom motivo para voltar.

Tártaro de Robalo e Salmão
Servido numa pequena taça de prata, o tártaro revelou-se ainda mais precioso que a peça em que era servido. Cortes exímios, peixes de altíssima qualidade e bom tempero. É simplesmente um prato perfeito, que poderia comer todos os dias sem me cansar!

Salmão ao Natural
Um carpaccio de salmão da Escócia, simplesmente regado com um fio de azeite e alcaparras. Rico, untuoso e cheio de sabor, a mostrar aquilo que pode e deve ser um verdadeiro salmão.

Ostras 
Ostras cozinhadas ligeiramente até abrirem e ficarem mornas, regadas com um molho amanteigado e fresco, e um sabor irrepreensível. Produto, produto, produto!

Lulinhas fritas 
A perfeição pode ser algo tão simples como estes “calamares”, de fritura brilhante, textura crocante, e leve kick de picante da pimenta de espelette que contrasta bem com a acidez e frescura do limão. Viciante!

 Salmonetes e Tranches de Robalo com lima
Seguiram-se um ótimos salmonetes, que aparentavam uma cocção mais forte do que o desejado, mas que se revelaram imaculados quando degustados, deixando-nos sentir o seu sabor único, que tanto me faz apreciar este peixe.

O prato de robalo é um dos pratos clássicos do Le Duc, com finas tranches de robalo a serem cozinhadas no prato quente e regadas com um molho leve de manteiga e sumo de lima.

Dois grande pratos, muito bem acompanhados por um arroz negro de grande sabor e aipo gratinado, cuja textura e sabor se revelaram uma bela surpresa.

Baba ao Rum
Chegada a altura de escolher a sobremesa, e é ver o célebre carrinho das sobremesas a aproximar-se da mesa e a fazer-nos pensar mais do que era suposto sobre a escolha. Mas estando num clássico parisiense, a Baba ao rum era uma escolha mais do que obrigatória. Uma generosa fatia, bem regada no momento – a garrafa de rum fica na mesa para o caso de não terem colocado o suficiente. Nota alta para a textura e sabor, com um excelente chantilly.

Sim os meus níveis de álcool passaram o recomendado depois da sobremesa.

E por falar álcool, a carta de vinhos acompanha a excelência da carta (e os preços!), onde não faltam os grande vinhos franceses e em especial da Borgonha para fazer a maridagem certa com uma cozinha tão cuidada e um produto tão fino. Optamos por um Roully 1er cru de Olivier Leflaive de 2013 (50€), que se comportou competentemente com os pratos escolhidos.

O serviço é também ele clássico e afinado pelos anos de experiência, em que os elementos mais novos da equipa foram certamente bem ensinados pelas gerações anteriores.

Os sempre delicados petit four, para terminar a refeição

Considerações Finais
O Le Duc é um daqueles restaurantes que passa ao lado dos holofotes e dos media, não tem uma celebridade à frente do restaurante, nem foca parte do seu orçamento em Relações Públicas e marketing. O esquema aqui é outro: satisfazer os clientes, na sua maioria habituais, apresentando-lhes o melhor produto do mercado, preparado da forma mais simples e pura para enaltecer todas as suas características, tal como criaram os Minchelli no passado, e que hoje todos os chefes, um pouco por todo o mundo, vão recriando, mesmo sem saber quem esteve na génese de um método, que na realidade talvez seja mais uma filosofia.

Hoje a cozinha está entregue, e bem, a Pascal Hélard, que continua a traçar o futuro com todo o seu foco nos produtos e numa simplicidade estética tão apurada que se o restaurante não tivesse cerca de 50 anos parecia recentemente assinado por um mestre japonês. É seguramente um dos melhores restaurantes de peixe da cidade, e é um daqueles espaços a que recorremos como um porto de abrigo, onde a tradição ainda é o que era e o produto é quem mais ordena!

Agora só me resta voltar!

Le Duc
Preço Médio: 100€ por pessoa sem vinhos (menu de almoço: 55€)
Boulevard Raspail, 243 – Paris
+33 1 43 20 96 30 

English Version

Fotos: Flavors & Senses

 

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Estão aí as novas estrelas Michelin para Portugal e Espanha

Depois de alguma tinta corrida e muita especulação (ainda que a maioria dos jornalistas se tenham esquecido dos restaurantes este ano!), já são conhecidas as novidades para esta edição do guia, “um ano de consolidação” como afirmavam os responsáveis pelo Guia.

Tiago Bonito e a Casa da Calçada conseguiram manter a estrela no Largo do Paço, ao contrário do que muito se especulou nos últimos meses – mais um jovem talento português que vê agora uma lufada de ar puro para levar a sua carreira e mostrar todas as suas capacidades.

Outro dos vencedores era conhecido como o eterno candidato, o Gusto no Conrad Algarve, que desde a sua abertura se posicionou com o objectivo de atingir as estrelas, ou não fosse a cozinha assinada pelo célebre Heinz Beck (***La Pergola, Roma), que junta agora mais uma estrela à sua carreira.

A estes juntou-se a  estrela mais jovem do País, uma estrela que peca por tardia mas que paga a qualidade do trabalho de João Oliveira e de toda a sua equipa no Vista, o restaurante do Hotel Bela-Vista em Portimão.

Um ano em que o eixo Algarvio volta a reforçar o seu lugar no livro vermelho.

Podemos dizer que o guia continua a deixar muitos e bons espaços sem a sua merecida estrela, onde por exemplo, se continua a adiar a 2ª estrela de João Rodrigues no Feitoria, e se continua a ignorar a matriz de sabor puramente português e espaços menos formais, como vai acontecendo um pouco por todos os países.

Já em Espanha, o mesmo mal parece continuar a pairar sobre Andoni Aduriz, a quem o guia parece não reconhecer o valor que o resto do mundo tem visto no Mugaritz. Isto apesar de haver dois novos 3 estrelas no País – um é no outro País vizinho, a Catalunha – o Aponiente de Angel León em Cádiz, e o ABaC de Jordi Cruz em Barcelona.

Entre as novidades do Guia Espanhol, a verdade é que a Catalunha caminha para poder ter o seu próprio guia, com dois novos duas estrelas, Disfrutar e Dos Cielos aos quais se juntou o mais recente projeto de Albert Adrià, Enigma, com uma estrela, entre vários outros galardoados.

2 estrelas 
– Belcanto – Lisboa (chefe José Avillez)
– Il Gallo d’Oro – Funchal (chefe Benoît Sinthon)
– Ocean – Algarve (chefe Hans Neuner)
– The Yeatman – Vila Nova de Gaia (chefe Ricardo Costa)
– Vila Joya – Praia da Galé (chefe Dieter Koschina)

1 estrela 
– Alma – Lisboa (chefe Henrique Sá Pessoa)
– Antiqvvm – Porto (chefe Vítor Matos)
– Bon Bon – Algarve – chefe Rui Silvestre)
– Casa de Chá da Boa Nova – Leça da Palmeira (chefe Rui Paula)
– Eleven – Lisboa (chefe Joachim Koerper)
– Feitoria – Lisboa (chefe João Rodrigues)
– Fortaleza do Guincho – Cascais (chefe Miguel Rocha Vieira)
– Gusto by Heinz Beck – Algarve (chefes Heinz Beck) Novo
– Henrique Leis – Algarve (chefe Henrique Leis)
– LAB by Sergi Arola – Sintra (chefe Sergi Arola)
– L’And – Montemor-o-Novo (chefe Miguel Laffan)
– Largo do Paço – Amarante (chefe Tiago Bonito)
– Loco – Lisboa (chefe Alexandre Silva)
– Pedro Lemos – Porto (chefe Pedro Lemos)
– São Gabriel – Algarve (chefe Leonel Pereira)
– Vista – Algarve (Chefe João Oliveira) Novo
– William – Funchal (chefes Luís Pestana e Joachim Koerper)
– Willie’s – Algarve (chefe Willie Wurger)

 

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The Presidential: No Douro com história, luxo e gastronomia

Uma manhã de calor e sol no Porto fazia antever uma escolha certeira para uma visita ao Douro, mas não era uma visita qualquer, era um passeio num comboio histórico, onde outrora se fizeram transportar Reis, ditadores e presidentes da República, agora batizado de The Presidential.

Enquanto centenas de turistas se iam encantando com os azulejos da lindíssima estação de São Bento, os olhares mais atentos iam-se debruçando sobre este comboio, fotos para aqui e fotos para ali, e este comboio presidencial bem podia concorrer com o TGV, que sairia vencedor no concurso de fama e beleza!

À hora marcada somos convidados a embarcar no antigo vagão dos jornalistas (aquele que ficava mais afastado do vagão presidencial) e é aí que percebemos que a “festa” iria prometer, mal assentamos os pés no interior do comboio somos convidados a degustar um Porto branco, um belo Niepoort Dry White, que é sempre uma boa forma de receber os amigos.

Arranca o comboio e entre o frenesim e a excitação lá se vão apresentando os vizinhos de cabine, um casal inglês acabado de chegar ao Porto, com quem acabaríamos por passar o resto do almoço e da viagem.

Começamos entre histórias e brindes (fomos renovando o stock de vinho do Porto) e o barulho do ar condicionado, também conhecido como “janela aberta”, ou não tivéssemos a viver uma experiência histórica!

Passamos assim a fase menos interessante da viagem, et voilà, somos convidados a passar para a sala de jantar, que neste caso é como quem diz almoço, para passar as cerca de 2 horas e meia seguintes a degustar a cozinha do chef Miguel Rocha Vieira enquanto vamos intercalando os olhares entre as vistas estonteantes do Douro e os malabarismos da equipa de sala!

Ivo Peralta, o escanção da Fortaleza do Guincho apresenta o primeiro vinho do almoço, o espumante Bairradino Água Viva da Niepoort 

Começamos com o mar e as suas representações, ou não fosse o mar um dos elementos mais importantes da cozinha de Miguel Rocha Vieira na Fortaleza do Guincho. Entre snacks delicados como as conchas “comestíveis” e as manteigas, também elas a representar o mar, destaque para o mexilhão com pimento e para as manteigas de pimento vermelho e de algas.

  É impressionante o detalhe técnico colocado na recriação de elementos marítimos

Enquanto íamos degustando os aperitivos, onde não faltou também o sempre delicado azeite da Acushla, já se fazia sentir na sala e nos corredores o aroma do caldo de marisco de que iria “regar” a sopa do mar que se seguiria.

Mariscos servidos no ponto, com um contraste de texturas bem conseguido e uma explosão de sabor a mar, que nos transportou rapidamente em direção oposta à que o comboio levava. Um mergulho no oceano bem acompanhado pelo Redoma branco de 2016, mineral, fresco e com um delicado toque salgado que faz toda a diferença.

O fantástico Conciso, o Tinto que a Niepoort produz na região do Dão

Robalo de Anzol, Alcachofras e lula dos Açores

À sopa seguiu-se o prato de peixe, um Robalo de porte considerável, acompanhado de lula dos Açores, alcachofra e molho de vinho tinto. Elementos do mar, combinados com notas de sabor a terra  que normalmente servem de assinatura aos pratos de peixe do chef. Muito bom! E muito bem combinado com um vinho do Dão, que servido a uma temperatura mais baixa, demonstrou toda a sua versatilidade e capacidade. Um vinho de grande elegância!

Enquanto a paisagem se vai tornando cada vez mais deslumbrante – é uma das características mágicas do Douro, à medida que vamos entrando por ele, e percorrendo o seu trajecto, vai-se tornando cada vez mais bonito e imponente – viajamos também até ao Alentejo com um prato de Porco Preto.

 O momento da colocação dos molhos é um dos mais engraçados durante a viagem, é preciso mão firme e alguma sorte!

Entre um lombo de porco, um puré de milho, pezinhos de coentrada, “bolotas” e um xárem, seria impossível uma ode maior ao animal e à sua região. Um belo prato, que não me importaria nada de ver recriado com um corte mais suculento e saboroso. No copo, aí sim voltamos ao Douro, com o “clássico” Redoma tinto de 2014, menos concentrado que em anos anteriores, com uma excelente acidez e um lado vegetal muito carismático.

 Delícia do Algarve, com alfarroba, amêndoas e figos

Para terminar voltamos a viajar por Portugal, desta feita até ao Algarve, numa fusão muito bem conseguida dos  habituais elementos doces da região, bolo de figo e amêndoa, gelado de flor de laranjeira, alfarroba, biscoito crocante, tudo muito bem ligado por um molho Inglês. Grande final, mais ainda quando degustado com o rico porto Niepoort Branco 10 anos, onde as notas de frutos secos acompanharam o prato na perfeição.

Podia ser caso de “barriga cheia, companhia desfeita”, mas não num comboio presidencial que pretende tornar a nossa experiência num momento único.  Passado o Pinhão temos ainda uma viagem até à deslumbrante Quinta do Vesuvio, uma das grande paixões de D. Antónia – a célebre Ferreirinha – hoje nas orgulhosas mãos da família Symington.

Os portões de acesso a algumas das vinhas da Quinta do Vesuvio

Desembarcados no Vesuvio, o comboio e a equipa seguem até ao Pocinho para um merecido almoço e descanso. Enquanto isso, Gonçalo Castel-Branco, o mentor do projeto The Presidential, convida-nos a visitar a Quinta, a conhecer a Adega onde se produzem alguns dos mais clássicos Portos e vinhos de mesa da região, ou simplesmente a aproveitar a paz e sossego do Douro, que a varanda da Quinta representa na perfeição.

 Quinta do Vesuvio

Conhecendo bem a Quinta de outras núpcias, optamos por aproveitar o bom tempo que se fazia sentir e a calma característica desta quinta do Douro para desfrutar de um charuto e de alguns dos vinhos da Symington, nomeadamente o Graham’s Single Harvest de 1972.

Um vinho com uma história interessante para a atual geração da Symington, já que, depois da aquisição da Graham’s pela família, foi o primeiro vinho que Peter Symington selecionou para envelhecer e que anos mais tarde o seu filho Charles, que lhe sucedeu na responsabilidade enológica, engarrafou. Rico, interminável e cheio de complexidade, é um Tawny que me enche completamente as medidas.

De regresso ao comboio somos recebidos com notas de piano na Sala Bar, enquanto o sol se começa a pôr e o Douro ganha uma cor irresistível.

 

É o momento do regresso e de tentar descobrir alguns dos encantos que o rio e a paisagem nos tinham deixado escapar na viagem de vinda. Uma prova de que é impossível resistir ao Douro é que após várias horas de comboio e algumas no Vesuvio, continuamos a não conseguir tirar os olhos da janela, por mais encantos e momentos que o comboio nos vá proporcionando.

Passado o Pinhão, estamos de novo à mesa, para um pequeno lanche, em jeito de homenagem à Portugalidade, com produtos nobres, que mostravam um pouco da excelência do que por aqui se faz, com conservas, enchidos da Qualifer – o emblemático talho do Pinhão que merece uma visita por si só (ver) – queijos, com destaque para o Queijo da ilha com 24 meses de cura e, claro, o delicioso pão da Gleba, ao qual ninguém tem conseguido ficar indiferente.

Houve ainda tempo para mais vinhos, sempre com o selo Niepoort, sempre com sinónimo de satisfação, e de uns docinhos produzidos pelos chefes residentes Vitor Areias e Rui Santos.

Pelo meio não faltou uma visita das históricas vendedoras de rebuçados da Régua, e o som da Guitarra Portuguesa, carregada de emoções e sentimentalismo bem português.

Mais do que caída a noite, regressamos à nossa cabine para um resto de viagem confortável e uns dedos de conversa, onde a temática era óbvia, uma retrospectiva do dia magistral que se havia passado a bordo de um comboio.

Quase no Porto, e numa fase em que o coração está mais do que conquistado, a equipa decidiu aquecer-nos a alma e aconchegar-nos o estômago, com uma recriação do clássico caldo verde, que assentou na perfeição.

Findada a viagem é tempo de despedida, tempo de parabenizar toda a organização e toda a equipa de sala e cozinha por se terem tornado verdadeiros actores, e nos terem proporcionado também a possibilidade de nos fundirmos com um cenário único. Um verdadeiro espetáculo!

E agora? Agora é esperar por 2018, que está prometido um regresso.

The Presidential

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Fotos: Flavors & Senses 

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Le Cinq Codet

Na busca incessante do luxo cada vez mais nos deparamos com os holofotes e as purpurinas do “ver e ser visto”. Para mim essa busca cessa, precisamente, quando me deparo com essa necessidade doentia do “mostrar”.

O luxo é muito mais do que isso, é discreto, é intimista, é a simples subtileza que nem todos conseguem compreender.

Já não procuramos os grandes palácios, e o exagero do luxo, o atendimento invasivo e servil… procuramos sim, e cada vez mais, o genuíno, a empatia, o conforto, e, acima de tudo, a privacidade.

Primeira Impressão
Quando me deparei com o Le Cinq Codet foi simples de perceber a sua contemporaneidade burguesa e boémia em simultâneo, características bem presentes da região parisiense em que se situa.

A Rive Gauche tem a capacidade de nos fazer viajar no tempo e na história da burguesia mais interessante de Paris, a boémia!


Uma antiga central telefónica com um toque despretensioso e elegante, uma mescla de arte e natureza e a melhor localização da cidade são (apenas) algumas das características do Le Cinq Codet.

A vista que se tem do hotel é, nada mais nada menos, que a cúpula dourada do Hôtel des Invalides!

Fomos calorosamente recebidos, à entrada, por um funcionário de sorriso sincero e com a descontração e educação/simpatia na proporção certa, após alguns minutos de uma boa conversa apercebemo-nos que era casado com uma portuguesa!

Acompanhados por ele à receção, o nosso check in foi feito sem demoras, e com o mesmo comportamento simpático e despretensioso.


Como chegamos cedo, o quarto ainda não se encontrava pronto e por isso optamos por relaxar um pouco no Lobby de entrada enquanto aguardamos pelo uber para nos levar a um almoço memorável no clássico Le Duc.

No Lobby está bem patente o estilo contemporâneo do hotel, cores sóbrias misturam-se com cores fortes e transmitem um ambiente vivo e entusiasmante ao hotel.

Pierre-Emmanuel Vandeputte na exposição Supper Green

Pudemos aperceber-nos da importância da arte para o Le Cinq Codet, razão pela qual se iniciou em Setembro e até ao final de Outubro a Super Green Exposition. Aqui, os hóspedes foram convidados a reconectarem-se com a natureza através duma exposição sensorial elaborada pelo Studio Marant, onde a arte entra em comunhão com o design como um todo. Desta forma, ao longo de todo o hotel, os espaços estão imersos numa onda de verde, ambiente esse que também se encontra presente na cozinha, onde o chefe criou um menu feito especialmente para a ocasião.


Um ambiente que nos leva a questionar: “Qual é a verdadeira natureza do mundo atual?”

Após um almoço incrível, lá regressamos ao Le Cinq Codet para conhecermos o nosso quarto.

Quartos
Os quartos são um dos ex libris do hotel. Contam-se 67 e dividem-se em quartos – Classic, Superior, Duplex, Deluxe e Family – e Suites – Junior, Duplex, Superior e Prestige. Caracterizados pelas cores quentes e vivas mescladas com madeira branca, cabedal, e pormenores boémios com alguma sensualidade discreta, tudo tem o toque do designer Jean Philippe Nuel.


Ficamos num Deluxe, com uns generosos 29m2. Com um toque de contemporaneidade extremamente elegante, e com uma funcionalidade como nunca vi, o que me arrebatou de imediato foi a banheira no meio do quarto!


Os quadros estrategicamente pousados na cabeceira da cama, e as cores fortes que preenchiam o quarto faziam daquele espaço um local com vida própria.

Tudo no quarto foi pensado ao pormenor, a atenção dada à parte funcional foi elaborada por alguém que efetivamente sabe as necessidades dos hóspedes mais minuciosos. Quer a cama quer o sofá estavam devidamente equipados com todas as funcionalidades electrónicas necessárias.

Sem a mais pequena dúvida, o quarto mais funcional onde já estive, e um dos mais interessantes e vibrantes.

De salientar que no último andar, as suites têm terraços de cortar a respiração com vistas para a Torre Eifel e o Hôtel des Invalides, em que quase parece que conseguimos tocar-lhes!


Restaurantes
Contam-se três espaços que se encontram em perfeita comunhão. O restaurante propriamente dito, o Pátio e o Lounge Bar.

O pátio é talvez um dos locais mais bonitos do hotel, um ambiente típico dos jardins parisienses, com um toque de decoração industrial e artística num formato contemporâneo, transmite aquela sensação de conforto e elegância em simultâneo. Aqui podem ser servidas as diferentes refeições ao longo do dia, assim a meteorologia o permita!


Relativamente ao Lounge Bar, este é uma espécie de extensão do Pátio, com uma simples parede de vidro a servir de fronteira. A luminosidade que se faz sentir, o ambiente e a decoração transportam-nos para os anos 40, diretamente para um ambiente de art deco.


Por fim, mas não menos importante, e num ambiente que tem tanto de cosmopolita como de privativo, temos o Restaurante. Este serve as diferentes refeições ao longo do dia.

Aqui tivemos a oportunidade de tomar o pequeno-almoço e de ter um jantar bem agradável, agraciados pelas noites de jazz que o hotel oferece aos sábados.

Se ao pequeno-almoço o serviço é simples e eficiente, com um buffet criteriosamente selecionado, onde não faltam os produtos de pastelaria de Eric Kaiser, bons chás e queijos de afinada qualidade, ao jantar o espaço torna-se mais íntimo e ainda mais cosmopolita.

Na nossa visita acabamos por degustar o menu especialmente desenhado pelo chef Antoine K’ros para a Exposição Supper Green, numa combinação de ingredientes leve e bem conseguida.

Frango do campo com legumes

Destaque para o aveludado e delicado creme de couve flor assim como o Frango com legumes e creme de beterraba onde as notas frescas do abacaxi deram uma nova dimensão ao prato.

Uma “maçã” de framboesa para terminar a refeição

Serviços
Além de todos os serviços habituais num hotel de luxo, desde Concierge, a Wifi, lavandaria, serviços de quartos, entre outros, uma das melhores características do Le Cinq Codet é a sua localização, naquele que é um dos melhores bairros de Paris, o 7º.


O hotel está próximo de algumas das melhores atrações da cidade, desde a Torre Eifel, à Ponte Alexandre III, e ao Museu Rodin.

Mas, talvez um dos ex libris do hotel será mesmo o seu Spa, o Sundãri Spa. Aqui, podemos usufruir do mais perfeito relaxamento enquanto esquecemos o bulício da cidade da luz.

Equipado com uma sala dupla, uma sauna e um jacuzzi incorporado num bonito terraço que fez as delícias da minha estadia!

Associado a este espaço de relaxamento temos também uma pequena sala de fitness.

Atendimento
Como fui referindo ao longo do texto, a simpatia e educação num ambiente descontraído são o mote da equipa do Le Cinq Codet. Os rostos são jovens e os sorrisos são constantes.

Há uma forma de atender sem invadir que muito caracteriza o novo luxo, a privacidade é o mais importante, e por isso os funcionários quase parece que nem se encontram no hotel. Mas, sempre que temos necessidade de algo eles antecedem a resposta aos nossos pedidos.

O Le Cinq Codet é tudo aquilo que procuramos no novo luxo ou, melhor dizendo, da nova forma de usufruir dele – privativo, intimista, genuíno e despretensioso. A melhor localização da cidade aliada a estas características, que tão bem o definem, fazem deste novo Boutique Hotel um local imperdível.

Le Cinq Codet
Quartos a partir de 230€
5 rue Louis Codet – Paris
+33 1 53 85 15 60
contact@le5codet.com

 English Version

 Fotos: Flavors & Senses

Nota
Estivemos no Le Cinq Codet a convite, sendo que isso em nada altera o nosso trabalho cuja opinião e o texto são da exclusiva responsabilidade do seu autor.

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5 restaurantes a não perder em Bragança

Este é um fim de semana de festa em Bragança com a Feira Internacional do Norte, mais conhecida por Norcaça, Norpesca e Norcastanha – um evento onde é possível conhecer um pouco mais sobre tudo o que de bom Bragança tem para oferecer (onde muito passa por isso mesmo, caça, pesca, castanha e os cogumelos que infelizmente este ano tardam em chegar).

Por isso, e a pensar em quem vai visitar a cidade (e sim, devem visitar Bragança e Trás-os-Montes) deixamos 5 restaurantes onde poderão provar o que de melhor a região tem para oferecer.

Solar Bragançano
Um clássico da cidade e uma presença habitual nos prémios Flavors & Senses (vencedor em 2017 na categoria Restaurante Trás-os-Montes), é um paraíso para os amantes de pratos de caça, trabalhados à moda antiga, pelas mãos sábias de quem ainda hoje utiliza o pote como meio de cocção.

De realçar ainda a fantástica carta de vinhos.

A salada de Perdiz é um dos pratos a não perder

Praça da Sé 34, 1º – Bragança
273 323 875

 Porta
Muito se comenta no meio gastronómico o que terá levado o chef André Silva a abdicar da sua estrela Michelin no Largo do Paço para abraçar um projecto em nome próprio na isolada cidade de Bragança, o que é certo é que fica a ganhar a cidade e, claro, quem a visita. Aqui podem esperar uma proposta refinada influenciada pela região e não só, onde a técnica e o cuidado com o produto são uma assinatura do chef.

restaurante Porta**

Largo Forte S.João, 204 – Bragança
273 098 516

O Geadas 

Se os irmãos Óscar e Tó Gonçalves são hoje conhecidos pelo seu restaurante Gastronómico “G”, aqui foi onde tudo começou! O restaurante aberto pelos pais, e onde a mãe é ainda quem tem a batuta da cozinha, presta homenagem às melhores tradições da região, onde não faltam enchidos e pratos de caça para conquistar o mais difícil dos comensais.

Nos vinhos, percam-se entre as colheitas antigas de referências conhecidas ou deixem-se levar pelos muitos e bons vinhos da região.

Estufado de javali no “O Geadas”

Rua do Loreto
273 326 002

D. Roberto
A fama é antiga e as “peregrinações” de clientes levaram a família a apostar na produção de enchidos e na criação de porcos de raça Bísaro. Mas o restaurante mantém a sua traça, e apesar do sucesso da “marca” é a mesma família que continua a cuidar criteriosamente da cozinha e dos clientes. Não deixem de provar o famoso Butelo ou a trilogia de porco bísaro.

Trilogia de porco bísaro

Trilogia de porco bísaro

R. Coronel Álvaro Cepeda – Gimonde
273 302 510

“G” Pousada 
Aproveitando a vista deslumbrante da Pousada sobre o Castelo e a cidade, os irmãos “Geadas” decidiram apostar numa cozinha de autor, onde brilham alguns produtos da região bem combinados com outros sabores bem típicos de Portugal, como o peixe de Peniche.

Os vinhos são uma das apostas fortes da casa pelo que as harmonizações preparadas por Tó Gonçalves irão surpreender no casamento com a cozinha do seu irmão.

A vista imperdível do “G”*

Pousada de S. Bartolomeu
Rua estrada do Turismo – Bragança
273 331 493

Deixem-se levar pela magia dos sabores ricos e autênticos da Região!

Fotos: Flavors and Senses e *André Ribeirinho, **Divulgação

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Rota das Estrelas: Casa de Chá da Boa Nova

 Há artigos que pecam por tardios, mas a cerca de um mês do anúncio das estrelas para 2018, e uma vez que este ano anda tudo muito sossegado quanto aos nomes que conseguirão manter ou conquistar as suas estrelas (os fenómenos dos media são mesmo assim), estamos perante uma boa altura para falar daqueles que normalmente mais brilham, ou seja, os chefs!

E para isso nada como um jantar da Rota das Estrelas, onde 4 dos mais bem sucedidos chefs em Portugal se reuniram para um jantar com o Mar como pano de fundo.

A batuta coube a Rui Paula, o anfitrião que recebeu na sua Casa de Chá da Boa Nova, Hans Neuner (Ocean, **Michelin), Miguel Rocha Vieira (Fortaleza do Guincho, Costes, Costes Downtown, *Michelin), Rui Silvestre (Bon Bon, *Michelin), que é como quem diz, uma cambada de tipos com pedigree.

Um irresistível Presunto Ibérico com corte afinado

A festa começou no exterior, com o sol a mostrar-se envergonhado à boa moda do Porto, mas com champanhe Pommery em quantidades suficientes para nos transportar para melhores climas. Não faltou um impecável Presunto ibérico bem laminado pelo Vítor Oliveira da Academia de Corte, salmão fumado artesanal feito pela equipa do Boa Nova, que se revelou uma bela surpresa.

 Salmão fumado artesanal

E continuamos com os snacks de Verão do Boa Nova, que já conhecíamos de outras visitas e uma colorida selecção de pães, com variedades e ingredientes para todos os gostos.

“Macarron” de algas e sardinha

António Lopes (Wine Guru, Anantara Vilamoura) foi o escanção convidado para se juntar a Carlos Monteiro

Durante a azáfama de ordenar todos os convidados nas suas respetivas mesas, não se dá pelo passar do tempo, enquanto vamos apreciando todos os encantos da Casa de Chá da Boa Nova e do seu enquadramento perfeito que, mesmo com mau tempo, nos transmite sensações únicas (é de facto uma sala única e especial).

A bom ritmo, surge no copo um Cattier “Clos du Moulin” Rosé, o champanhe que viria a fazer um excelente casamento com o prato que se seguiria, com as suas notas de frutos vermelhos e verbena.

Rui Paula – Caranguejo Real, Tomate e Morango
Um prato leve, fresco e aparentemente simples. Grande rigor na execução dos frutos, tomates e emulsões, mas para um início perfeito teria de ter sido o Caranguejo real a brilhar, o que acabou por não acontecer, pelo excesso de “picado” e da secura da carne.

Hans Neuner – Ostra, Foie gras fumado e ananás dos Açores
Este prato trouxe-me memórias duma grande refeição do Ocean, onde este prato tinha brilhado entre os restantes momentos. Não estando naturalmente ao mesmo nível, que a versão apresentada no Ocean (por todos os motivos e mais alguns), parecendo-me aqui que o ananás se sobrepôs um pouco aos demais ingredientes. Ainda assim uma entrada irresistível!

No copo o casamento revelou-se a bom nível, com a cremosidade da bolha e o final fresco do Billecart Salmon  Blanc Des Blancs.

Rui Silvestre – Lavagante do Atlântico, gema de ovo e caviar imperial
Existem pratos que por ingredientes mais nobres que tenham e por melhor que seja a técnica executada, não nos entusiasmam. Faltou-lhe a alma (e possivelmente um caldo) para o levar a outros voos.

A acompanhar o prato a escolha recaiu sobre o Principal Rosé de 2010, um vinho que foi controverso à mesa, com alguns comensais a considerar que já tinha perdido o seu fulgor e a sua energia, mas que a mim me deu gosto beber e que combinou bem com o lado mais gordo do prato.

Rui Paula – Homenagem aos Pescadores
A inspiração veio de uma Chora (sopa tradicional do receituário dos nossos pescadores), aqui presente no molho e na espuma que dão vida ao prato, onde as texturas e os peixes confeccionados no ponto criaram a simbiose perfeita e fizeram deste o prato da noite. Muito bom!

A acompanhar, não poderiam ter feito melhor escolha, com um dos meus vinhos preferidos da região dos Vinhos Verdes, o Ameal “Escolha” 2015, um grande ano, em que este exemplar 100% Loureiro se mostra em grande esplendor, com frescura e muita complexidade.

Miguel Rocha Vieira – Cherne de Anzol, alcachofras e lula dos Açores
Gosto da forma como o chef Miguel Rocha Vieira normalmente pensa os seus pratos de peixe e a forma como lhe adiciona contrastes fortes de sabor a terra, seja pela beterraba, a cenoura ou neste caso a alcachofra.  Tecnicamente irrepreensível no aspecto, teve algumas falhas na cocção do peixe – é um daqueles casos em que se o prato fosse preparado na sua cozinha e pela sua equipa durante um serviço normal, nos faria aplaudir.

Ainda assim foi um excelente momento à mesa, mais ainda quando conjugado com Niepoort VV de 2015, o grande branco que Dirk Niepoort criou na Bairrada a partir de uma combinação de Maria Gomes e Bical.

Rui Paula – milho e molho do assado
É impressionante a evolução da cozinha de Rui Paula nos últimos anos, lembro-me de há menos de uma década servir o seu cabrito assado, o seu pastelão com bife do Lombo, que depois evoluiu para pratos como o peixe galo com risotto de lima e que nos últimos tempos tem apresentado combinações de texturas e platings arriscados. A evolução é isso mesmo, aprender, criar e executar, e no caso de Rui Paula, é visível que tem aprendido a tirar elementos dos pratos e a fazer brilhar aqueles com que efetivamente decide trabalhar.

Apresentando aqui um bom jogo de texturas em torno do milho, com puré, maçaroca, milho baby, blini e a pipoca (dispensável), sabores adocicados, afinados pelas algas e o molho do assado, que apesar da pouca quantidade, fez maravilhas ao conjunto.

E se até aqui a escolha vínica ia em alta, este momento não seria excepção, com o impressionante Quinta da Pellada Primus 2015 a ser servido. É ainda muito jovem para ser totalmente apreciado, mas é um vinho que impressiona, seja pela mineralidade, a acidez ou a sua frescura e longevidade na boca. Um grande vinho!

Pré-Sobremesa

Pausa no jantar, onde não houve pratos de carne, e onde não fizeram falta, e eis que surge a pré-sobremesa, bem trabalhada pela equipa de Rui Paula, com sabores quentes e ricos, do chocolate, figo e cereja. Muito bom.

Rui Paula – Avelã, cereais e pão tostado
Um prato que já tinha provado e aprovado numa visita anterior ao Boa Nova (ver). Uma combinação que nos transporta para o pequeno almoço, com os seus sabores e ingredientes de conforto muito bem trabalhados.

Ainda assim e depois de uma refeição tão longa, não seria pior se o final fosse um pouco mais leve e fresco (que é sempre a minha opção para sobremesas em menus).

Para terminar não houve um mas sim dois vinhos, um Porto Dalva Colheita de 2007 e um Madeira Barbeito “Bual” de 1995. Ambos em excelente forma, mas com o Madeira a conquistar-me para o último gole. Que grandes vinhos está a fazer o Ricardo Diogo e a sua equipa.

E por falar em vinho, não posso deixar de destacar o trabalho do Carlos Monteiro e do António Lopes, quer pela seleção de grandes vinhos com que nos presentearam quer pela forma como souberam harmonizá-los com os pratos servidos.

Considerações Finais
Eventos como o Rota das estrelas não deve ser vistos como “extraordinários momentos gastronómicos”, isto porque, sem dúvida, cada chef brilha muito mais na sua própria cozinha, no seu habitat e com a sua equipa. Devem ser vistos como grandes festas, festas gastronómicas, onde num jantar apenas se conseguem reunir 4 ou 5 nomes que dificilmente se voltam a juntar e provar pratos que de outra forma nos fariam viajar por todo o país (não que comer não seja o principal motivo para eu viajar!).

Sobre este jantar, resta-me dar os parabéns a todos os chefs e em especial ao anfitrião, Rui Paula, que recebeu cozinheiros e comensais no seu cenário inigualável e com o seu habitual savoir faire.

Um brinde aos chefs e às novas estrelas que estão quase aí a chegar!

English Version

Fotos: Flavors & Senses 

Rota das Estrelas

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